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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Linguagem e surdez: questões de identidade

A área da surdez tem sido marcada pela proposta de educação bilíngüe (Skliar, 1997), a qual nos sugere mudanças que se mostram necessárias, sendo a mais importante delas o respeito à língua de sinais enquanto língua natural1 e de direito do surdo. Outra mudança se refere à condição bilíngüe do surdo, ou seja, ele deverá ter acesso à língua de sinais através do contato com a comunidade surda (dado o fato de 95% dos surdos serem filhos de pais ouvintes e adquirirem tardiamente a língua de sinais), possibilitando que a língua majoritária, oral e escrita, seja trabalhada como segunda língua.
Nessa perspectiva, a aceitação de uma língua implica sempre a aceitação de uma cultura, conforme lembra Behares (1993). Para este autor, a passagem para a educação bilíngüe significa uma mudança ideológica com respeito à surdez e não uma mudança meramente metodológica, destacando que a educação bilíngüe propõe-se a transformar a educação dos surdos em uma pedagogia socializada, abandonando as práticas clínicas e terapêuticas.
Os surdos, mediados pela língua de sinais, constroem suas relações sociais, adquirem conhecimento e se constituem em sua diferença. A questão da língua de sinais, portanto, está intimamente relacionada à cultura surda (Gesueli, 2006). Esta, por sua vez, remete à identidade do sujeito que (con)vive, quase sempre, com as duas comunidades (surda e ouvinte). Neste contexto, importa analisar o modo que os sujeitos inseridos em escolas bilíngües narram-se como sujeitos da comunidade surda.
A inserção do professor surdo e da língua de sinais em contexto escolar torna-se essencial para a construção da identidade surda e, conseqüentemente, para se conseguir uma educação condizente com as possibilidades lingüístico-cognitivas do surdo (Gesueli, 1998).
Atualmente temos nos debruçado sobre uma bibliografia que discute a questão da identidade surda, que mostra a importância do reconhecimento do surdo enquanto sujeito surdo; do seu contato com a comunidade e principalmente a importância do uso da língua de sinais. Como língua e identidade não estão desvinculadas, interessa-nos a condição da “identidade surda”, visto que o sujeito surdo faz uso de uma língua que não é a língua da maioria que o cerca. Geraldi (1996) afirma que “os sujeitos se constituem a medida que interagem com os outros, sua consciência e seu conhecimento de mundo resultam como produto deste processo”.
A concepção de língua aqui assumida estará apoiada na discussão apresentada por Bakhtin (1995), na qual o sujeito não se situa nas extremidades ou na fonte do discurso e também não se constitui em mero reprodutor de discursos; o sujeito é, antes de mais nada, um produto dos discursos. É através do interdiscurso que ele se constitui:
Inspirado em Bakhtin, entende-se que o sujeito se constitui como tal à medida que interage com os outros sua consciência e seu conhecimento do mundo resultam como ‘produto sempre inacabado’ deste mesmo processo no qual o sujeito internaliza a linguagem e constitui-se como ser social, pois a linguagem não é trabalho de um artesão, mas trabalho social e histórico seu e dos outros e para os outros e com os outros que ela se constitui. (Geraldi, 1996, P.19).
Dado o papel da linguagem como atividade constitutiva (Franchi, 1977), nos interessa discutir a relação língua/identidade, entendendo que o sujeito se constitui como tal à medida que interage com os outros. Parafraseando Geraldi (1996), a língua e o sujeito se constituem nos processos interativos. “Isto implica que não há um sujeito dado, pronto, que entra em interação, mas um sujeito se completando e se construindo nas suas falas e nas falas dos outros” (Geraldi, 1996, p.19). Nesse contexto, a criança surda filhas de pais ouvintes cresce como estrangeiro na sua própria língua, pois não compreende a língua falada pelos pais e pela sociedade a sua volta. Daí as dificuldades e barreiras no processo de construção de sua identidade.
A interação com os pais e com a sociedade fica deveras prejudicada, e o que se obtém é a constituição de um sujeito deficitário, ou seja, um ouvinte deficiente, pois a comunidade majoritária visa constituir a criança surda como um sujeito ouvinte. A criança surda não interage para ser um sujeito surdo, mas para ser um sujeito ouvinte deficiente.

TIPOS DE IDENTIDADE SURDA

TIPOS DE IDENTIDADE SURDA
Antes de iniciar as explanações sobre as várias categorias de identidade surda, precisa-se entender o conceito de ouvintismo e sua diferença com o oralismo.
Ouvintismo: ideologia dominante que trata-se de um conjunto de representações dos ouvintes, a partir do qual o surdo está obrigado a olhar-se e a narrar-se como se fosse ouvinte. Além disso, é nesse olhar-se, e nesse narrar-se que acontecem as percepções do ser deficiente, do não ser ouvinte; percepções que legitimam as práticas terapêuticas habituais. Forma atual de continuar o colonialismo sobre os surdos.
Oralismo: filosofia dominante, foi e segue sendo hoje, em boa parte do mundo, uma ideologia dominante dentro da educação do surdo. A concepção do sujeito surdo ali presente refere exclusivamente uma dimensão clínica - a surdez como deficiência, os surdos como sujeitos patológicos - numa perspectiva terapêutica. A conjunção de idéias clínicas e terapêuticas levou em primeiro lugar a uma transformação histórica do espaço escolar e de suas discussões e enunciados em contextos médico-hospitalares para surdos.
Surdo não é Deficiente, é apenas Diferente, com signos diferentes de ouvintes. Os surdos têm signos visuais enquanto os ouvintes têm signos auditivos. As pessoas surdas têm a sua comunicação visual, têm a sua própria língua, a língua de sinais permite que o surdo crie a sua linguagem interior, entender os conceitos da vida, e além disso também permite que o surdo tenha formação de linguagem e pensamento, ter orgulho de sua diferença, e além do mais é uma língua mais rica do que a falada.
Infelizmente a influência do poder ouvintista prejudica a construção da identidade surda, tornando evidente que as identidades surdas assumam formas multi-facetadas em vista das fragmentações a que estão sujeitas face à presença do poder ouvintista que lhe impõe regras, inclusive, encontrando no estereótipo surdo uma resposta para a negação da representação da identidade surda ao sujeito surdo.
Levando em conta os fatores sociais, familiares, o poder ouvintista que determinam na construção da identidade do sujeito surdo, há categorias de identidades surdas, uma vez que existem diferenças entre os surdos:
Identidade Surda - são as pessoas que têm identidade surda plena, geralmente são filhos de pais surdos, têm consciência surda, são mais politizados, têm consciência da diferença, e têm a língua de sinais como a língua nativa. Usam recursos e comunicações visuais.
Identidade Surda Híbrida - são surdos que nasceram ouvintes e posteriormente se tornam surdos, conhecem a estrutura do português falado.
Identidade Surda de Transição - são surdos oralizados, mantidos numa comunicação auditiva, filhos de pais ouvintes, e tardiamente descobrem a comunidade surda, e nesta transição, os surdos passam pela desouvinização, isto é, passam do mundo auditivo para o mundo visual.
Identidade Surda Incompleta - são surdos dominados pela ideologia ouvintista, não conseguem quebrar o poder dos ouvintes que fazem de tudo para medicalizar o surdo, negam a identidade surda como uma diferença. São surdos estereotipados, acham os ouvintes como superiores a eles.
Identidade Surda Flutuante - são surdos que têm consciência ou não da própria surdez, vítima da ideologia ouvintista. São surdos conformados e acomodados a situações impostas pelo ouvintismo, não têm militância pela causa surda. São surdos que oscilam de uma comunidade a outra, não conseguem viver em harmonia, em nenhuma comunidade, por falta de comunicação com ouvintes e pela falta de língua de sinais com surdos.

Audismo

A luta contra o ouvintismo

(Por Hugo Eiji)
Assumir e valorizar a surdez como diferença, como uma expressão identitária fundada em atributos culturais próprios, é (ainda) exercício árduo para muitos ouvintes, acostumados que estão a associá-la a uma condição patológica de perda, deficit e incompletude. Isso porque a surdez é comumente (re)tratada por seu aspecto fisiológico, como a falta de um sensório que assegura a todos uma condição, e um estatuto, “normal” – com a força totalizante e segregadora que o termo “normal” granjeia do senso comum.
Por esse viés ouvintista, não ouvir é estar privado de um atributo que nos faz possíveis em um mundo de sons; é estar deficiente, aquém, comumente inapto para um dia-a-dia produtivo; é estar em situação de constante desvantagem, como apregoa o corolário de muitos discursos hegemônicos.
Não ouvir é, por essas compreensões, um estado incapacitante que precisa ser curado e normalizado a qualquer custo. Sob a égide desses argumentos, uma série de práticas foram – e são – postas em ação pelo “bem-estar” e pela “inclusão” do sujeito surdo. Em nome de sua felicidade, muitos esforços são tomados para a cura e para a superação da surdez: práticas de oralização (ortopedias da fala), treinamentos auditivos, escolas-clínicas centradas em pedagogias e terapias de reabilitação, processos cirúrgicos de cura, desenvolvimentos de próteses e outros vários dispositivos que “tratam” a surdez por meio de projetos e expectativas ouvintes.
Ainda hoje, pesam sobre muitos Surdos os ecos do Congresso de Milão e das medidas eugênicas/profiláticas em relação à surdez que vigoraram no mundo ocidental no último quartel do século XIX e por boa parte do século XX, .
O audismo/ouvitismo, como um conjunto de práticas e discursos normalizadores, faz-se presente, não raro, de formas pouco visíveis. Sutil, nas entrelinhas dos gestos, a subjazer esforços, ele apregoa e inculca formas por vezes brandas de dominação e controle.
“A normalização é um dos processos mais sutis pelos quais o poder se manifesta no campo da identidade e da diferença. Normalizar significa eleger – arbitrariamente – uma identidade específica como o parâmetro em relação ao qual as outras identidades são avaliadas e hierarquizadas. (…) A força da identidade normal é tal que ela nem sequer é vista como uma identidade, mas simplesmente como a identidade” (SILVA, 2000, p. 83 apud LUNARDI; MACHADO, 2007).
Ao mesmo tempo em que práticas ouvintistas são levadas a cabo por instituições, investigadores, familiares, profissionais, etc., uma série de discursos e ações se realiza como forma de confronto e de luta por conquistas e efetivações de direitos. Concepções sócio-antropológicas, deafhood, revisões terminológicas e epistemológicas, movimentos de afirmação identitária: a surdez, signo em luta, é tensionada, confrontada, disputada e posta em cheque em suas várias acepções. No enfretamento de “velhos” regimes de verdade, ganha novas representações na conflituosa arena de significações sociais.
Uma das lutas mais emblemáticas de reterritorialização da surdez no campo das representações sociais, comum em diversas comunidades surdas de diferentes países do mundo, é a luta pelo reconhecimento e pela valorização das línguas gestuais. Em boa parte dos países ocidentais onde os Surdos partilham espaços de convívio, as línguas de sinais – outrora proibidas, marginalizadas e clandestinas – figuram como um dos principais (senão o principal) marcadores culturais dos grupos surdos.
Um bem simbólico que marca um processo de descolonização perante os esforços de oralização e imposição da fala, ao mesmo tempo que um elemento de pertença identitária que resgata a autodeterminação dos grupos Surdos em relação ao jugo ouvintista, as línguas gestuais, nas mãos das comunidades surdas, fizeram-se (e fazem-se) bandeira política das mais valiosas no que diz respeito à diferença. Entre movimentos de mãos e expressões faciais, partilhados em ambiente linguístico comum, redefinem-se aos poucos os territórios simbólicos ocupados pela surdez.
Com um estatuto de língua natural, e não como um arremedo de gestos ou um conjunto de mímicas, as línguas de sinais (L.S.) também ocuparam (e ocupam) a centralidade das investigações acadêmicas na área dos Estudos Surdos.
“As línguas de sinais são, portanto, consideradas pela lingüística como línguas naturais ou como um sistema lingüístico legítimo, e não como um problema do surdo ou como uma patologia da linguagem. Stokoe, em 1960, percebeu e comprovou que a língua dos sinais atendia a todos os critérios lingüísticos de uma língua genuína, no léxico, na sintaxe e na capacidade de gerar uma quantidade infinita de sentenças” (QUADROS; HEBERLE, 2006, p. 87).
Por essa nova perspectiva, e com a chancela de investigações científicas, as línguas de sinais emergiram da clandestinidade para ocupar um lugar privilegiado na agenda política da surdez. Se, já no final da década de 50 do século XX, William Stokoe (1960), por meio de pesquisas linguísticas, anunciava a complexidade e a riqueza da língua (em sua morfologia, sua sintaxe e pragmática), hoje uma série de investigadores continuam a se dedicar ao estudo e à promoção das línguas gestuais.
Se antes se acreditava que a fala era o elemento por excelência estruturante do pensamento (quantas vezes não se ouve, do senso comum, que “pensar é falar para dentro?”), hoje afirma-se que a existência de uma língua – seja em modalidade aural-oral, seja em modalidade visual-espacial – é o aspecto cognitivo que garante ao sujeito o acesso ao “pensamento lógico”, à “razão”, aos “esquemas superiores”, etc. Desfez-se a confusão entre língua e fala, comum há vários séculos [1].
O respaldo oferecido pelos discursos acadêmicos, em consonância com a mobilização das comunidades surdas nas últimas décadas do século XX em diferentes países ocidentais, possibilitou uma série de lutas e investidas que tinham na defesa da L.S um arrimo para outras ações. A defesa de uma educação bilíngue-bicultural de qualidade [2], a presença de intérpretes de línguas de sinais (em repartições públicas, aparelhos de cultura, produções fílmicas, centros de ensino, etc.), o incentivo a produções culturais em L.S. (teatro, dança, literatura, eventos, etc.), a existência de espaços de formação e ensino de/em línguas gestuais [3], a difusão e a valorização das culturas surdas, entre outras iniciativas, foram – e são – bandeiras levantadas por boa parte dos movimentos e associações de surdos, que fortalecem ainda mais a coesão e a emancipação das comunidades surdas em relação ao poder/saber ouvinte.
Em 1997, a Língua Gestual Portuguesa (LGP) foi reconhecida como uma das línguas oficiais de Portugal, ao lado do Português e do Mirandês. Em 2002, a lei nº 10.436 (ratificada pelo decreto nº 5.626/05) oficializou a Libras – Língua Brasileira de Sinais como meio legal de comunicação e expressão oriunda das comunidades de pessoas surdas do país, regulamentando o direito de uso e sua inclusão em instituições e concessionárias de serviços públicos no Brasil. Com respaldos legais, o uso e a promoção das L.S. nesses países ganharam novo fôlego, fomentando a criação de novas licenciaturas, novos cursos de formação e capacitação, bens e serviços, entre outras empreitadas ancoradas nas línguas gestuais. O reconhecimento legal dessas línguas trouxe às comunidades surdas um importante instrumento de luta e resistência contra os esforços oralistas, ouvintistas, de proibição ou negação das formas manualistas de comunicação.
Em muitos países, porém, a luta pelo reconhecimento e pela oficialização das línguas de sinais ainda continua viva, como uma conquista esperada para o porvir.
Além da questão linguística, outros esforços somam-se à luta das comunidades surdas para a ressignificação e revalorização da surdez como traço identitário. Campanhas, eventos e discursos permeiam esse campo conflituoso em que a “boa-intenção” ouvinte por vezes se choca com a afirmação do “ser Surdo”.
Um slogan corrente, bastante divulgado nos últimos anos entre comunidades surdas de diferentes países, afirma: “deaf people can do anything except hear” [4] (“pessoas surdas podem fazer tudo exceto ouvir”). Como um clichê repetido em diferentes sítios, a frase aparece em uma série de vídeos, redes sociais, magazines impressos e eventos. Sem estarem aquém de pessoas ouvintes, os surdos – por muitos ainda vistos como “coitadinhos”, dignos de políticas caritativas – reivindicam seus direitos (no mundo do trabalho, em questões de acessibilidade, na fruição e produção de bens culturais, etc.) como quaisquer outros cidadãos.
E se os esforços de positivação da Surdez envolvem uma série de iniciativas, as tentativas de “correção” nem sempre são muito bem-vindas. Assim acontece com o “ouvido biônico” (implante coclear), que divide opiniões nas comunidades surdas e ouvintes.
Uma prótese eletrônica parcialmente implantada, que permite ao usuário sensações auditivas próximas das fisiológicas, vem suscitando uma série de questionamentos éticos. Por meio de pequenos microfones, processadores de fala, transmissores e eletrodos, a informação acústica é transmitida à cóclea por estímulos elétricos, de modo que o nervo auditivo “leva” os sinais ao encéfalo para serem decodificados e percebidos como som:
“O implante coclear é um dispositivo eletrônico de alta tecnologia, também conhecido como ouvido biônico, que estimula eletricamente as fibras nervosas remanescentes, permitindo a transmissão do sinal elétrico para o nervo auditivo, afim de ser decodificado pelo córtex cerebral” (BEVILACQUA; COSTA FILHO, 2012, website)
“Sound and Fury” (2000), um interessante documentário produzido pelo realizador estadunidense Josh Aronson, centra os holofotes sobre esse assunto bastante controverso entre Surdos, trazendo à baila a questão espinhosa do uso de implantes cocleares (IC) por crianças surdas.
Os argumentos apresentados no filme retratam as dúvidas da família nova-iorquina Artinian e escancaram um ponto conflituoso – e bastante emblemático – presente nas zonas de atrito entre os Surdos e as práticas e discursos ouvintistas: quais são os limites e pressupostos éticos para se permitir, ou vetar, o uso dessas próteses eletrônicas em crianças surdas? (Clique aqui para assistir a “Sound and Fury”)
Para alguns, a intervenção cirúrgica do I.C é mais que uma política de sujeição pela correção do corpo danificado – é, sobretudo, um ato normalizador de apagamento cultural. Já para outros, o implante em crianças pequenas figura (cercado de discursos biomédicos) como uma possibilidade de fruição quase plena de um mundo de sons. Enquanto os primeiros opõem-se à intervenção precoce em crianças pequenas por entendê-la como um ato violento, de colonização ouvintista e achatamento da diferença, os segundos percebem o I.C. como uma tentativa de reabilitação e superação de uma condição limitante.
De acordo com muitos especialistas da área médica, entre otorrinolaringologistas e fonoaudiólogos, o uso precoce da prótese eletrônica (preferencialmente em crianças com surdez neurossensorial profunda, a partir dos 12 meses de idade) favorece o desenvolvimento das habilidade auditivas e o aprendizado da língua oral. Quanto mais cedo se der o procedimento cirúrgico e a implantação do dispositivo eletrônico, melhores serão as possibilidades de aprendizado da fala e de “recuperação” auditiva [5], afirma-se.
Por esse solo minado, farpado, caminham muitas famílias. De um lado, a vontade de correção da surdez, de intervenção cirúrgica para o abrandamento das limitações causadas pelo “não ouvir”; de outro, o desejo de pertença dos filhos a um ambiente linguístico e cultural comum, sem a violência operatória (e os incômodos causados aos pequenos) de um implante.
Se para pais ouvintes a notícia da surdez de um filho comumente tangencia a tragédia, a frustração e o desejo de cura, para pais surdos não raro a “boa nova” surge sem grandes aflições – sendo, por vezes, até cercada de contentamento. Uma delicada discussão ética pousa sobre o “impasse”, cada vez mais comum no cotidiano de vários surdos.
No entanto, polarizar as posições entre “surdos contrários” e “ouvintes favoráveis” ao I.C. em crianças é simplificar, de forma descuidada e grosseira, a diversidade de contextos, sujeitos e situações [6] que envolvem o assunto. Mais importante que circunscrever determinados argumentos a esse ou aquele grupo é atentar para os diferentes lugares do discurso que compõem essa trama narrativa, além de perceber os ideários que sustentam as falas e os gestos de cada interlocutor, sejam surdos ou ouvintes, reticentes ou simpáticos ao uso do implante.
O tema se desenrola por caminhos sinuosos, com uma série de argumentos apresentados (por vezes, bradado) por vários atores. Sobretudo, o imbróglio da família Artinian, retratado no documentário de Josh Aronson, mostra com riqueza e sensibilidade como esse antagonismo ultrapassa as fronteiras do debate médico e adentra por questões identitárias e culturais – talvez o mais importante a ser sublinhado.
Os dissensos sobre o implante coclear, as abordagens médicas e culturalistas (das moderadas às mais radicais), a aceitação e a luta contrária ao ouvido biônico trazem à superfície a complexidade e a mobilidade das fronteiras traçadas entre as compreensões clínicas e as concepções sócio-antropológicas da surdez. Uma região conflituosa, espinhosa, que exige um grande cuidado para ser (re)tratada.
Outra pauta comum dos movimentos surdos de vários países é a luta pela manutenção e criação de escolas e salas bilíngues-biculturais, onde as línguas gestuais vigoram como primeira língua e onde um projeto Surdo para a surdez determina as especificidades do currículo.
No Brasil, o Movimento Surdo em Favor da Educação e da Cultura Surda, por exemplo, vem reunindo milhares de militantes surdos e ouvintes, nos últimos anos, em defesa da educação bilíngue nas escolas e salas de surdos do país. Uma batalha levada a cabo em manifestações de rua, associações, redes sociais e parlamentos, com renhidas discussões entre protetores de políticas inclusivistas [7] e defensores das escolas e das classes bilíngues para surdos. Com uma farta programação de atividades no mês de setembro (sobretudo nos últimos anos), o movimento ganhou força e popularizou o “Setembro Azul” [8]. Nesses embates, as relações de poder/saber estabelecidas entre Surdos e ouvintes são colocadas em xeque, minando as velhas significações sobre a surdez.
Vale ressaltar que a escola (e a sala) de Surdos é um dos espaços privilegiados das comunidades surdas, onde crianças surdas (principalmente as filhas de pais ouvintes) podem adquirir as línguas de sinais, ter acesso (em suas línguas nativas) aos conteúdos escolares e conviver com outros surdos, muitas vezes adultos, que atuam como importantes modelos de comportamento. Para muitos jovens, esses espaços escolares fazem-se imprescindível ponte para um novo mundo Surdo (e importante meio de empoderamento para um mundo ouvinte).
Porém, as bandeiras Surdas não são consensuais no seio do povo surdo (que é, como já afirmado, bastante heterogêneo). Muitos surdos não usuários das línguas gestuais [9], que não partilham das comunidades e culturas surdas, opõem-se – não raro – a várias lutas dos movimentos Surdos. Entre os argumentos comuns, opõem-se à “guetização” das comunidades surdas (paroquializadas em torno de associações, igrejas, grêmios desportivos, e alienadas do mundo ouvinte), às relações de dependência e subalternização impostas pelo não domínio das línguas majoritárias (em sua modalidade oral ou escrita), à sectarização e radicalidade de parte da militância Surda, à alegada estreiteza de posições e imposições do “ser Surdo” – que desconsidera outras formas de vivenciar a surdez –, além de outros pontos de atrito e distensões.
A surdez, assim, em todas as suas divergências e significações (sejam clínicas ou sócio-antropológicas), nos meandros de sua heterogeneidade, confirma-se como uma invenção cultural (LOPES, 2007) forjada em (e por) diferentes contextos históricos.
Se os postulados médicos que recolocam a surdez no campo das deficiências (da perdaauditiva) alimentam-se em lugares discursivos específicos, que fabricam e reatualizam velhas interpretações sobre o ser surdo, as assumpções da surdez como marca cultural também se provam como (novas) categorias inventadas, como novos construtos sociais contemporâneos.
“Nessa perspectiva, a invenção da surdez como diferença primordial ganha status de verdade e de realidade quando começa a ser produzida nas narrativas surdas a partir de um entendimento que não é aquele marcado pelas práticas clínicas ou pela diferenciação entre deficientes e não deficientes. A surdez é entendida como uma invenção quando a vemos como um traço/marca sobre o qual a diferença se estabelece produzindo parte de uma identidade; quando a usamos para nos referirmos àquilo que não sou (…)” (LOPES, 2007, p. 18).
Tanto as novas compreensões assumidas sobre a Surdez como as velhas visões e posturas ouvintistas exercem forte efeito normatizador sobre os sujeitos. “Ouvintismo” ou “surdismo”, as práticas e os discursos que daí decorrem vinculam-se a normas específicas, que exercem sobre o indivíduo – de forma muito ou pouco sutil – interferências coercitivas.
A própria ideia de cultura e comunidade surda também se desdobra em processos de ajustamento, conformação e pulverização das diferenças individuais. Daí a negação, neste blog, de entender “normalização” como processo perpetrado exclusivamente por forças ouvintistas. O que se evidencia aqui é a ação homogeneizadora, de apagamento cultural e achatamento de possibilidades imposta por ideologias audistas hegemônicas: põem-se em questão, sobretudo, as medidas de neutralização e anulação da diferença sob a força de práticas e discursos dominantes.
Eis um intricado universo de conflitos, marcado por assimetrias de poder, que se desdobra em uma série de ações e revisões por parte de surdos e ouvintes. Eis um caminho cheio de meandros e pormenores que exige de investigadores e militantes uma série de atenções e cuidados.

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[1] Entre os teóricos que marcam a separação entre língua e fala, destaca-se Saussure (1972), que ressalta as distinções entre langue e parole.
[2] Em que o aprendizado da língua majoritária, em sua modalidade oral ou escrita, dá-se após a aquisição da língua gestual – assumida como primeira língua (de instrução e interação em ambiente escolar).
[3] Sejam cursos de primeiro ciclo em língua gestual e em tradução/interpretação, sejam disciplinas de L.S. incluídas no currículo de cursos universitários ou de ensino básico.
[4] A frase, atribuída à Frederick Schreiber (uma das grandes lideranças surdas norte-americanas das décadas de 1960 e 70), foi repetida por Irving King Jordan – o primeiro reitor surdo da Gallaudet University – no período de sua posse, após uma das mais efervescentes movimentações políticas das comunidades surdas estadunidenses, o Deaf President Now, em 1988 (quando os estudantes surdos da universidade, por meio de manifestações, greves e piquetes, exigiram a nomeação de um reitor surdo, após mais de cem anos de gestões ouvintes).
[5] “A indicação cirúrgica do IC em crianças portadoras de deficiência auditiva neurossensorial de grau profundo deve ocorrer o mais precocemente possível, para que o impacto da privação sensorial nos primeiros anos de vida seja minimizado por meio da utilização da estimulação elétrica advinda do IC” (BEVILACQUA; COSTA FILHO, 2012, site), indica o site “Implante Coclear”, sítio de referência sobre o tema, gerido pelo Dr. Orozimbo Costa Filho, médico otorrinolaringologista, e pela Dra. Maria Cecília Bevilacqua, fonoaudióloga. Vale ressaltar que o I.C. nem sempre traz resultados satisfatórios para todos os seus usuários.
[6] Hoje, por exemplo, muitos surdos (mesmo adultos) já optam pelo uso do I.C, o que refaz as fronteiras identitárias desses sujeitos. Por sua vez, alguns pais ouvintes, sabedores das comunidades e práticas culturais surdas, opõem-se aos processos cirúrgicos em seus filhos. Fato é que o Implante Coclear trouxe novos cenários e dinâmicas para o mundo surdo.
[7] Projetos que afirmam, “custe o que custar”, a inclusão do surdo em salas de aula comuns, com recursos de acessibilidade e reforço complementar em contra-turnos.
[8] Setembro é o mês em que, em diversos países do mundo, comemora-se o dia do surdo. No Brasil, o dia 26 é marcado como o “Dia Nacional dos Surdos”. Azul é a cor associada aos movimentos surdos, junto com um laço que simboliza o “ser Surdo”.
[9] Surdos oralizados, que comumente fazem uso da fala e da leitura orofacial (“labial”).

domingo, 7 de maio de 2017

Culturas e Identidades em Questão

Culturas e Identidades em Questão


 Quando falamos sobre cultura muitas coisas podem vir a nossa mente, há diferentes culturas e diferentes modos de conceituar cultura, depende do espaço onde ela é discutida.
Aqui, neste espaço lingüístico, usamos o termo cultura para expressar “jeitos de ser e estar no mundo”, e ressaltaremos a todo momento os jeitos de ser e estar no mundo do povo surdo, ou seja, a Cultura Surda. Sobre Cultura Surda podemos dizer com as palavras de Sá (p.01, 2006) 4 que ““
Cultura”, neste texto, é definida como um campo de forças subjetivas que dá sentido(s) ao grupo”. No século XXI, mais do que nunca, tem-se dado extremo valor à estética do corpo e da linguagem, mesmo que ocultamente temse mantido o paradigma da alta e da baixa cultura.
 O discurso que ecoa é que surdos são pessoas deficientes, que precisam entrar na linha da normalização, precisam urgentemente ser iguais a maioria, precisam falar, ver, ouvir, andar fazer parte de uma cultura dita padrão para então serem considerados incluídos na sociedade.
 O embate acontece exatamente porque existe um campo de forças subjetivas que dá sentido(s) ao grupo, u seja, existe a Cultura Surda e é a língua de sinais a marca subjetiva que dá sentido(s) a esta cultura.
 Os surdos são organizados social e politicamente, possuem um estilo de viver que é próprio de quem usa a visão como meio principal de obter conhecimento. A cultura surda é também híbrida e mestiça, pois não se encontra isolada no mundo, está sempre em contato direto com outras culturas e evolui da mesma forma que o pensamento humano.
Há narrativas normalizantes que põem os surdos como pessoas sub-culturais relatando que: Acho que os surdos não têm uma cultura própria, têm apenas algumas adequações. (...)
Os surdos interagem com outros surdos, porque eles se 4 SÁ, Nídia Limeira de. Existe uma cultura surda? Artigo disponível em http://www.eusurdo.ufba.br/arquivos/cultura_surda.doc. Acessado em 28/03/2007.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

A HISTÓRIA DE VIDA SURDA

A HISTÓRIA DE VIDA SURDA


Quando adolescentes, e mais independentes dos pais, os surdos acabam por abandonar a escola e ingressam em comunidade surdas e muitos sentem profundo ressentimento contra o grupo (ouvinte) que teve com eles tanta intolerância. Nas ocasiões surdas vão aprender a se narrar surdos, a se vê como sujeitos como uma língua e cultura próprias, e não como deficientes auditivos (denominação que enfatiza o déficit orgânico e implica uma “identidade deficiente” em relação á condição das demais pessoas ouvintes).
Pessoas surdas, nessas condições de escolarização, mesmo após vários anos, apresentam dificuldades em relação à aquisição de conhecimentos de maneira geral, e especialmente no uso da linguagem escrita. Mas se pensarmos a história de vida e educação dos surdos não é uma história difícil de ser analisada e compreendida, ela evolui continuamente apesar de vários, impactos marcantes, no entanto, vivemos momentos históricos caracterizados por mudanças, turbulências e crises, mas também de surgimento de oportunidades.

Como você pode contribuir com a acessibilidade de pessoas surdas

Como você pode contribuir com a acessibilidade de pessoas surdas


Como é se relacionar com uma pessoa surda? Não importa se você é um familiar próximo ou distante, se é amigo ou colega, entender o universo da surdez traz benefícios tanto para pessoas ouvintes quanto surdas.
Libras
Para ouvintes, porque ampliam seu entendimento sobre as possibilidades e capacidades humanas, que além de diversas, apresentam potenciais incríveis. E para pessoas surdas, porque assim é possível contribuir para uma melhor comunicação com ouvintes, ampliando principalmente o acesso a informação e a igualdade de direitos.
Um amigo meu, alguns meses depois de terminar o curso intermediário de Libras, teve a oportunidade de ajudar um casal de surdos que tentava com dificuldade comprar um lanche na rodoviária de Curitiba.
A pessoa que os atendia havia simplesmente desistido de compreendê-los, mas meu amigo que já tinha um nível de comunicação básico acabou intervindo e conseguiu mediar a situação, o casal conseguiu o que queria e ficaram muito agradecidos e meu amigo por sua vez foi pegar o ônibus feliz da vida, achando que o curso de Libras não poderia ter valido mais a pena!
Já escrevi aqui sobre a Libras, a Língua de Sinais Brasileira, que é um dos pontos fundamentais ao se tratar da comunicação com pessoas surdas.
Eu tenho um irmão surdo e posso dizer que, além da Libras, aprendi muito nesta experiência. O Dudu se comunica exclusivamente pela língua de sinais, ou seja, não faz leitura labial ou oralização do português. O fato do Dudu ser surdo influenciou muito na maneira como eu percebo a vida, tenho a impressão que me tornei, pela nossa relação, mais sensível a diversidade de experiências humanas.
No caso das pessoas surdas, as barreiras de comunicação ainda são inúmeras. Em grande parte devido a aspectos sociais e culturais, mas há muita beleza e potencialidade na diferença. E acredito que com educação e políticas públicas adequadas, as possibilidades de igualdade na diversidade se ampliam consideravelmente.
Bem, ter uma pessoa surda na família pode ser difícil. Mas acredite, bem mais difícil é para ela ter somente ouvintes na sua família.
E você, como pode ajudar a mudar este contexto?
As sugestões a seguir dependem muito da sua proximidade (amigo, familiar ou colega de trabalho) e da idade em que a pessoa surda se encontra. Mas todas servem para qualquer relação entre pessoas surdas e ouvintes.
1. Aprenda Libras! Saber se comunicar (mesmo que em um nível básico) pela língua materna da comunidade surda é muito importante. Se a pessoa surda for um familiar, torna-se ainda mais fundamental conhecer a Libras para estreitar os laços, trocar ideias, aprender e ensinar, compartilhar a vida.
2. Procure instituições especializadas. No caso de crianças, escolas que considerem o uso e o ensino tanto da Libras quanto do Português. Recursos didáticos, ambientes de aprendizado, dentre tantos outros aspectos da educação, precisam estar em conformidade com as especificidades da surdez. Nestas instituições é importante observar se pessoas surdas ocupam os mais variados cargos como professores, gestores ou servidores. Se quase todos forem ouvintes, a falta de referência de um adulto surdo pode levar a criança surda a se considerar menos capaz.
3. Em escolas, universidades, palestras e eventos, solicite sempre a presença de um Tradutor e Intérprete da Língua de Sinais. É um direito garantido por lei.
4. Estimule a participação da pessoa surda em grupos de surdos. Existem grupos esportivos, religiosos, dentre tantos outros, aonde a Libras é a primeira língua falada e a maioria dos integrantes é surdo. Nestes grupos é possível que a pessoa surda consiga aperfeiçoar sua comunicação em sinais, troque conhecimento e conheça outras pessoas que são surdas como ela! Esta convivência entre falantes da mesma língua faz toda diferença para o desenvolvimento, autoestima e integração social da pessoa surda.
5. Informe-se sobre os direitos garantidos por lei à pessoas surdas. Embora os efeitos na prática ainda não aconteçam de maneira efetiva, o Brasil, nos últimos anos, teve avanços significativos no campo das políticas públicas voltadas à inclusão social. Destacam-se a Lei n. 10.436 de 2002, que reconhece a Língua Brasileira de Sinais como meio oficial e legal de comunicação e expressão; o Decreto Federal 5626/2005, que regulamenta a lei 10.436 e Lei n. 12.319 de 2010, que trouxe a regulamentação da profissão de tradutores e intérpretes da língua brasileira de sinais. A Lei n. 10.098 de 2000, embora utilize o termo “deficiente auditivo” e seja mais abrangente, também estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade.
6. Procure materiais e recursos que tenham incorporados a língua de sinais. Embora não tanto quanto é necessário, existem atualmente livros, jogos, filmes e recursos didáticos que incluem a Libras. Estes materiais são muito importantes e benéficos porque frequentemente apresentam representações positivas acerca da surdez, associam Libras e Português e podem ainda aproximar surdos e ouvintes.
7. Considere sempre a experiência da pessoa surda. Se for desenvolver qualquer projeto que tenha como pressupostos acessibilidade e inclusão, procure saber como uma pessoa surda se sente em relação a sua proposta, quais são as possíveis barreiras e sugestões. Sendo ouvintes, nunca saberemos realmente como é ser surdo.
Aonde aprender Libras?
Fonte: site Papo de Homem por Ana Claudia França e fernandazago.com.br

Por que línguas de sinais são tão importantes para pessoas surdas

Por que línguas de sinais são tão importantes para pessoas surdas



Enquanto a pessoa cega está afastada de um mundo de imagens, devido às barreiras de comunicação, a surda está frequentemente distante de outras pessoas, muitas vezes da própria família. A comunicação é um dos processos mais importantes no nosso desenvolvimento. É a comunicação que nos oferece a possibilidade de expressão, proximidade, compreensão, ensino, aprendizado, identificação, afeto, dá-se enfim, sentido a própria existência.
A língua de sinais é considerada a língua materna de uma pessoa surda, já que é a primeira língua que ela aprende, o que significa que o aprendizado ocorrerá naturalmente havendo condições pra isso. Uma pessoa surda se apropria de significados visualmente e línguas de sinais são adequadas a esta forma de apreensão do mundo.
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É também sua língua nativa, já que gera identificação com uma determinada cultura ou comunidade. Por isso, é comum pessoas surdas participarem de associações, grupos de igreja, dentre outras organizações nas quais a língua de sinais esteja presente e onde podem encontrar surdos e surdas, compartilhar suas vidas, trocar conhecimentos e informações que outros lugares não lhes oferecem.
São grupos frequentados também por ouvintes (pessoas não surdas): tradutores, intérpretes e pessoas interessadas em estabelecer contato direto com a comunidade surda, a fim de aprender e aperfeiçoar a fluência na língua de sinais.
Por isso, é fundamental considerar a Libras em todas as etapas de aprendizado e situações de comunicação envolvendo pessoas surdas.
Susan Dupor, artista surda, frequentemente representa em seus quadros muitas mãos em referência a importância que a língua de sinais tem para pessoas surdas. Susan nasceu surda, vive em Lake Geneva, no estado de Wisconsin, nos Estados Unidos, onde mantém seu estúdio de pintura e leciona a disciplina de Artes na Wisconsin School for the Deaf.
Pessoas surdas podem fazer coisas incríveis
Bem, isso ocorre da mesma forma que funciona pra quem escuta. Se houver oportunidades e condições adequadas, pessoas são capazes de realizar feitos incríveis. Como explica o antropólogo Roque Laraia de Barros no livro “Cultura: um conceito antropológico“, não é suficiente “a natureza criar indivíduos altamente inteligentes, isto ela faz com frequência, mas é necessário que coloque ao alcance desses indivíduos o material que lhes permita exercer a sua criatividade de uma maneira revolucionária”.
Talvez um exemplo que impressiona seja o de Helen Keller que nasceu surda e cega, mas com o auxílio de sua professora, Anne Sullivan, encontrou as condições de compreender e se expressar no mundo. Helen Keller escreveu livros como “A história da minha vida”, foi ativista, pesquisadora, conferencista e viajou pelo mundo defendendo os direitos de pessoas deficientes. O filme “O milagre de Anne Sullivan”, que estreou em 1962, conta parte da sua surpreendente história.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Cultura Surda

Cultura Surda

Os surdos, além de serem indivíduos que possuem surdez, por norma são utilizadores de uma comunicação espaço-visual, como principal meio de conhecer o mundo em substituição à audição e à fala, tendo ainda uma cultura característica.
No Brasil eles desenvolveram a LIBRAS, e em Portugal, a LGP. Já outros, por viverem isolados ou em locais onde não exista uma comunidade surda, apenas se comunicam por gestos. Existem surdos que por imposição familiar ou opção pessoal preferem utilizar a língua falada.

Progresso na cultura surda

Ao longo dos anos, as pesquisas interdisciplinares sobre surdez e sobre as línguas de sinais, realizadas no Brasil e em outros países, tem contribuído para a modificação gradual da visão dos surdos, compartilhada pela sociedade ouvinte em geral.
Esses estudos têm classificado os surdos em duas categorias:

·         Os portadores de surdez patológica, normalmente adquirida em idade adulta;

·         E aqueles cuja surdez é um traço fisiológico distintivo, não implicando, necessariamente, em deficiência neurológica ou mental; antes, caracterizando-os como integrantes de minorias linguístico - culturais; este é o caso da maioria dos surdos congênitos.

O fato de integrarem um grupo lingüístico-cultural distinto da maioria lingüística do seu país de origem, equipara-os a imigrantes estrangeiros. Porém, o fato de não disporem do meio de recepção da língua oral, pela audição, coloca-os em desvantagem em relação aos imigrantes, com respeito ao aprendizado e desenvolvimento da fluência nessa língua. Essa situação justifica a necessidade da mediação dos intérpretes em um número infinito de contextos e situações do quotidiano dessas pessoas.
Devido ao bloqueio auditivo, seu domínio da língua oral nunca poderá se equiparar ao domínio da sua língua materna de sinais, ainda que faça uso da leitura labial, visto que, essa técnica o habilita, quando muito, a perceber apenas os aspectos articulatórios da fonologia da língua. Daí sua enorme necessidade da mediação do intérprete de língua de sinais.
No caso específico dos surdos brasileiros, cuja língua materna de sinais é a LIBRAS, os intérpretes que os assistem são chamados de “Intérpretes de LIBRAS”.
No Brasil, existem pelo menos duas situações em que a lei confere ao surdo o direito a intérprete de LIBRAS:

·         nos depoimentos e julgamentos de surdos (área penal);

·         e no processo de inclusão de educando os surdos nas classes de ensino regular (área educacional).

Devido as constantes modificações e progresso neste campo, nas concepções de ensino de língua de sinais, atualmente, tem-se dado ênfase ao mecanismo de aprendizado visual do surdo e a sua condição bilíngüe-bicultural. Contudo, o surdo é bilíngüe-bicultural no sentido de que convive diariamente com duas línguas e culturas: sua língua materna de sinais (cultura surda) e língua oral (cultura ouvinte), ou de LIBRAS, em se tratando dos surdos brasileiros.

Surdo e Mudo?

A terminologia: Surdo-Mudo tem sua raiz na história, num tempo muito antigo quando a pessoa Surda estava condenada a mudez. Ser surdo significava automaticamente ser mudo, e pior, ser um Abandonado, Excluído, Desacreditado!
Com o passar do tempo, apesar de se constatar ser possível ensinar o Surdo a falar ( língua oral ), e, principalmente, de estudos conferirem à língua de sinais usada por eles há tantos séculos o "título" de língua verdadeira, mesmo assim, falando uma ou duas línguas, a denominação "Surdo-Mudo" permanece!Acreditamos que só um trabalho informativo
Comunidade surda junto a sociedade sobre a inadequação do termo "Surdo-Mudo" pode, aos poucos, fazer cair em desuso esse termo.
Surdo-cego:

Uma das definições mais antigas, de nosso conhecimento, diz: "Surdo-cegos são as crianças que têm dificuldades auditivas e visuais, cuja combinação resulta em problemas tão severos de comunicação e outros problemas de desenvolvimento e educação, que elas não podem ser integradas em programas educacionais especiais para deficientes auditivos ou para deficientes visuais." (citada por Lieke de Leuw em 1997, SP).

Atualmente temos uma postura diferente, nos preocupamos em descobrir quais as possibilidades que a criança apresenta e suas necessidades em vez de destacar suas dificuldades. Assim temos descoberto muitos recursos para atendê-la.
Também existem outros recursos para reconhecer um Surdo-cego, e outras informações sobre o seu desenvolvimento. Temos acompanhado crianças Surdo-cegas brasileiras que desenvolveram condições de serem educadas com os surdos, comunicando-se em LIBRAS e usando o Braille para o conhecimento da leitura e escrita. Mas para que isso aconteça é necessário que a intervenção seja precoce.


Leia mais: http://institutoemanuel.webnode.com.br/lingua-de-sinais/cultura-surda/