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segunda-feira, 18 de julho de 2016

LIBRAS, QUE LÍNGUA É ESSA?

LIBRAS, QUE LÍNGUA É ESSA?
 Desmistificando a Língua Brasileira de Sinais Diversos autores, através de suas pesquisas na área, vêm mostrando claramente que as Línguas de Sinais podem ser comparadas em termos de complexidade e expressividade a quaisquer línguas orais, mesmo se pertence a uma modalidade diferente, são visual-espaciais, ou seja, são estabelecidas pelo canal visual (visão) e utilizam o espaço para estabelecer a comunicação entre os seus interlocutores. As pessoas usuárias da Libras, sejam surdas ou ouvintes, podem estabelecer discussões sobre diferentes temas como: filosofia, política, esportes, literatura e da mesma forma, utilizá-la com função estética para recitar poesias, fazer teatro, historias, humor entre outras. A diferença da modalidade das línguas de sinais determina o uso de mecanismos sintáticos específicos diferentes dos utilizados nas línguas oral-auditivas, por exemplo, na língua portuguesa. Uma dos mitos mais famosos com relação às línguas de sinais é a de que são Universais, visto que a universalidade ancora-se na ideia de ser esta língua um código que os surdos utilizam para se comunicar e, muitas vezes transmitir fatos da língua portuguesa, podendo até comunicarse em qualquer lugar do mundo. Esse mito não é verídico, visto que do mesmo modo que as pessoas falam diferentes línguas orais no mundo, também as pessoas surdas em qualquer parte do mundo falam diferentes línguas de sinais. O surgimento de uma língua em determinada comunidade envolve aspectos culturais e de interesses comuns, por isso os surdos brasileiros não podem falar, por exemplo, ASL – língua de sinais americana, nossa cultura e interesses nos diferenciam. Mesmo o Brasil e Portugal que possuem a mesma língua oficial oral, no caso dos surdos nascidos nesses países, suas línguas de sinais são diferentes, os surdos portugueses utilizam a LSP – Língua de Sinais Portuguesa e nossos surdos usam a Língua Brasileira de Sinais – Libras, do mesmo modo Estados Unidos e Inglaterra. LETRAS LIBRAS|16 No Brasil também temos registro de uma língua de sinais utilizada pelos índios UrubusKaapor, que vivem na região amazônica. Muitas pessoas acham que as línguas de sinais são apenas gestos e mímicas atribuindo a elas um caráter de artificialidade, mas ao contrário, são línguas naturais, pois evoluíram a partir de um grupo cultural, os surdos. Como exemplo de línguas artificiais temos o “esperanto1 ” (língua oral) e o “gestuno2 ” (língua de sinais), essas línguas realmente foram criadas com um intuito apenas de estabelecer uma comunicação internacional, funcionando como língua auxiliar ou franca, planejada para fins comunicacionais apenas. Quando pensamos em termos históricos, acredita-se que as línguas de sinais possuem origens ou raízes nas línguas orais. São poucos os registros a respeito dessas origens, mas em Wilcox & Wilcox (1997) encontramos argumentos de que há dois tipos de evidência que mostram o uso de forma natural das línguas de sinais pelos surdos. O primeiro vem de uma pequena comunidade próxima a Massachusetts, Estados Unidos, chamada Martha’s Vineyard, uma pequena ilha comunitária com elevado índice de hereditariedade de surdez, observado entre os séculos XVII e meados do século XX. O segundo tipo de evidência vem da França, um surdo, chamado Pierre Desloges, relata no livro Observations of a Deaf-Mute, em 1799, sobre a própria língua de sinais que utilizava e a defendia contra aqueles que desejavam bani-la. A Língua de sinais americana bem como a língua brasileira de sinais tiveram suas origens na língua francesa de sinais. Nos Estados Unidos, o americano Thomas Hoppins Gallaudet sensibilizado com uma garotinha surda, Alice Cogswell de 8 anos, viaja a Europa em busca de novos métodos para ajudar no desenvolvimento educacional desta menina, visto que não confiava muito nos métodos para oralizar pessoas surdas. 1 Em 1887, o russo Ludwik Lejzer Zamenhof, oftalmologista e filosofo, publicou a versão inicial do idioma com o objetivo de criar uma língua de aprendizagem muito fácil como língua franca inernacional para os povos de todos os cantos do mundo. Sabe-se que nenhuma nação adotou oficialmente o esperanto como língua, mas registra-se um uso por uma comunidade de mais de 1 milhão de falantes. Atualmente é a língua auxiliar planejada mais falada no mundo. (Santiago, 1992) 2 O nome gestuno tem origem italiana e significa “Unidade em língua de sinais”. Foi citada pela 1ª vez em 1951 no Congresso Mundial na Federação Mundial de Surdos. Em meados da década de 1970, o comitê da Comissão de Unificação dos Sinais propunha um sistema que unificasse os sinais mais compreensíveis, que facilitassem o aprendizado, a partir da integração das diversas línguas de sinais. (Moody, 1987; Supalla & Webb, 1995; Jones, 2001) LETRAS LIBRAS|17 No Brasil, em 1855, um surdo francês, Ernest Huet, em comum acordo com o imperador Dom Pedro II, chega ao país e cria a primeira escola nacional de surdos, atualmente o Instituto Nacional de Educação de Surdos – INES na cidade do Rio de Janeiro. As línguas de sinais são rodeadas no imaginário popular de vários mitos. Outro fato relevante em que se acredita é que estas línguas são ágrafas, ou seja, não possuem escritas. Na verdade até pouco tempo, as línguas de sinais não possuíam escrita, mas a ideia de representá-la graficamente surgiu em 1974, por Valerie Sutton, uma coreógrafa americana que fez uma espécie de transcrição dos sinais para utilizá-los com os passos de dança, isto de imediato chamou a atenção da comunidade científica dinamarquesa das línguas de sinais. Iniciam-se, então, pesquisas na área e, a partir desde momento, acontece o primeiro encontro de pesquisadores, nos EUA organizado por Judy Shepard-Kegel, e dele um grupo de surdos adultos aprendem a escrever os sinais do Sign Writing, a escrita dos sinais. No Brasil o sistema ainda é um experimento e foi, a partir de 1996, que um grupo de pesquisa, liderado por Antônio Carlos da Rocha Costa, na Pontifícia Universidade Católica - PUC de Porto Alegre, começou sua caminhada para o desenvolvimento da escrita da língua de sinais brasileira e futuro reconhecimento legal.

domingo, 19 de abril de 2015

Globo.com Homem com Down aprende Libras para se comunicar com esposa surda


Globo.com
Homem com Down aprende Libras para se comunicar com esposa surda
Morador de Luziânia, cidade goiana no Entorno do Distrito Federal, ele estuda a Língua Brasileira de Sinais (Libras) para se comunicar com a ...

Histórico da Língua Brasileira de Sinais na Educação de Surdos



Não se sabe certo onde surgiu a língua de sinais nas comunidades surdas, mas foram criadas por homens que tentaram recuperar a comunicação através dos demais canais por terem um impedimento auditivo. Não existem registros oficiais do surgimento da língua de sinais no mundo. Alguns educadores, mesmo fracassando não mediam esforços para fazer os surdos falarem, inclusive no Brasil, já outros, criavam adaptações técnicas e metodologia especifica para ensinar os surdos levando em consideração as suas diferenças lingüísticas. No entanto, vários surdos sinalizavam entre si, criando um momento propício para a constituição de uma língua de sinais.
fonte: http://www.faesi.com.br/nucleo-de-pesquisa-cientifica/75-portal-do-saber/224-a-importancia-do-ensino-de-libras-na-educacao-fundamental

Libras

“A LIBRAS é adotada de uma gramática constituída a partir de elementos Constitutivos das palavras ou itens lexicais e de um léxico que se estruturam a partir de mecanismos fonológicos, morfológicos, sintáticos e semânticos que apresentam também especificidades, mas seguem também princípios básicos gerais. É adotada também de componentes pragmáticos convencionais codificados no léxico e nas estruturas da LIBRAS e de princípios pragmáticos que permitem a geração de implícitos sentidos metafóricos, ironias e outros significados não literais. A LIBRAS é a língua utilizada pelos surdos que vivem em cidades do Brasil, portanto não é uma língua universal.”

terça-feira, 14 de abril de 2015

P`rimeiro aparelho auditivo

Uma viagem pela história dos aparelhos auditivos

Dos primeiros aparelhos auditivos (ear trumpet) aos aparelhos auditivos modernos
Surdez e perda auditiva sempre existiram. Por muito tempo, se acreditou que pessoas incapazes de ouvir também possuíam outras deficiências. Um mal entendido que durou, infelizmente, até o século XVI. A sociedade discriminou, por muito tempo, pessoas com perda auditiva.
Um monge espanhol chamado Pedro Ponce provou, no século XVI, que não há ligação entre as capacidades auditiva e intelectual de uma pessoa. Por volta de 1530, ele ensinou Pedro e Francisco, os filhos surdos do nobre Juan Fernández de Velasco y Tovar, como ler, escrever, fazer contas e falar.

Martha´s Vineyard


Onde fica
Martha's Vineyard (Vinhedo de Marta) é uma ilha na costa nordeste dos Estados Unidos da América, no estado de Massachusetts. Com uma área de 231,75 km2, Martha's Vineyard é a 57ª ilha dos Estados Unidos por área. A ilha hoje é predominantemente uma colônia de férias para veraneio.
História
Era uma ilha isolada, e seus primeiros colonos vieram do sul da Inglaterra. Dentre eles, um surdo chamado Jonathan Lambert (1694), carpinteiro e agricultor. Jonathan casou-se com uma ouvinte, e geração após geração, seus filhos nasceram com o mesmo gene para a surdez. Por volta de 1710, a migração tinha praticamente cessado, e a comunidade endogâmica criada continha uma alta incidência de surdez hereditária, que persistiria por mais de 200 anos
Estatísticas
Em 1854, quando a população surda da ilha estava no pico, nos Estados Unidos a média nacional era de uma pessoa surda em cada grupo de 5728 ouvintes. Em Martha´s Vineyard a média era de uma pessoa surda em cada grupo de 155 ouvintes. Na cidade de Chilmark, que tinha a maior concentração de pessoas surdas na ilha, a média foi de um surdo para cada grupo de 25 ouvintes. Em um bairro de Chilmark chamado Squibnocket, havia um surdo para cada grupo de 4 ouvintes, ou seja, 25% da população local era surda.
A língua de sinais
Havia tantas pessoas surdas em Vineyard que os moradores desenvolveram uma língua de sinais para viabilizar a comunicação. Por volta do século 18, havia uma língua de sinais distinta na cidade Chilmark, que foi posteriormente influenciada pela língua de sinais francesa, formando a MVSL (Martha´s Vineyard Sign Language). No final do século 18 e início do século 20, praticamente todos habitantes da ilha possuíam algum grau de fluência na língua de sinais local.
A vida na ilha
O continente não era um lugar tão bom para os surdos viverem. Muitas pessoas acreditavam que a surdez era um castigo. Enquanto as famílias com surdos desenvolviam seus próprios sinais em casa, a sociedade não conseguia entender estes sinais rudimentares, pois eram diferentes de casa em casa. Os estudiosos queriam que os surdos aprendessem como uma pessoa ouvinte. Quase não havia oportunidades de carreira para os surdos adultos. O melhor que se podia esperar era ser treinado para fazer algum trabalho manual ou outra tarefa muito simples.
As perspectivas para as pessoas surdas em Martha´s Vineyard eram completamente diferentes. A igualdade rara entre surdos e ouvintes foi uma coisa notável e maravilhosa. Os preconceitos sobre as pessoas surdas não existia, fazendo a comunidade da pequena ilha parecer o lugar perfeito para os surdos.
Algumas curiosidades:
Havia surdos em todas as famílias;
A maioria da população era bilíngüe;
As pessoas eram vistas sinalizando mesmo quando não havia surdos presentes;
Os surdos eram agricultores, funcionários de lojas, ocupavam diversos postos de trabalho e também eram eleitos para cargos políticos, tornando-se prefeitos e vereadores, uma coisa inédita no resto do país;
Os agricultores sinalizavam para seus filhos em campos abertos, onde a voz não alcançava;
As crianças sinalizavam umas para as outras enquanto a professora estava de costas;
Os adultos sinalizavam durante os sermões da igreja, para não fazer barulho;
Um grupo de entrevistados, questionados sobre histórias antigas da comunidade, só podiam lembrar depois de muita insistência, se as pessoas que estavam falando eram surdas ou ouvintes.

Declínio gradual da população surda

A população surda teria continuado a crescer, se não fosse o desenvolvimento da educação de surdos no continente. No início do século 19, uma nova filosofia de ensino começou a surgir, e a primeira escola para surdos do país foi inaugurada em 15 de Abril de 1817, em Hartford, Connecticut, por Thomas Hopkins Gallaudet e Laurent Marie Clerc. A escola continua a ser a mais antiga existente para surdos na América do Norte, e hoje se chama American Scholl for the Deaf (ASD).
Muitas das crianças surdas de Martha's Vineyard  inscreveram-se lá, levando sua língua de sinais com eles. No entanto, a língua dos professores era a língua de sinais francesa, que Laurent Clerc trouxe com ele de Paris. Nesta escola muitos dos outros alunos surdos usavam seus próprios sinais domésticos. Esta escola ficou conhecida como o berço da comunidade de surdos nos EUA, e os sistemas de sinais diferentes utilizados lá, incluindo Martha´s Vineyard Sign Language (MVSL), uniram-se para formar a American Sign Language (ASL).
Cada vez mais pessoas surdas permaneceram no continente, e outros voltavam trazendo cônjuges surdos que encontraram lá (cuja perda auditiva podia não ser devido à mesma causa hereditária). À medida que mais e mais surdos afastaram-se, cada vez menos filhos surdos nasceram na ilha. No início do século 20, a comunidade anteriormente isolada de pescadores e agricultores começaram a ver o fluxo de turistas aumentando, o que se tornaria um dos pilares da economia da ilha. Os postos de trabalho no turismo não foram tão amigáveis aos surdos como a pesca e a agricultura haviam sido. Além disso, os casamentos e a migração do continente para a ilha e vice-versa fizeram que ambos cada vez mais se tornassem semelhantes. Em 1952, Katie West, a última surda hereditária, morreu na ilha. Hoje a MVSL é uma língua morta, todavia, dentre o legado deixado, está sua contribuição na formação da American Sign Language (ASL) e a prova de que surdos e ouvintes podem conviver em harmonia e sem nenhum preconceito. 

Libras

Línguas de sinais (Libras, LGP…)

(Por Hugo Eiji)
Um dos principais marcadores culturais das comunidades surdas, as línguas de sinais deixam claras, já em um primeiro momento, as regiões fronteiriças entre as culturas surdas e as culturas ouvintes majoritárias. Um traço distintivo que configura e conforma grande parte das práticas simbólicas de sujeitos Surdos.
Apesar de sua celebração, dos movimentos identitários que a (re)afirmam como patrimônio maior das culturas surdas e de sua crescente exposição, a língua de sinais ainda é pouco conhecida por grande parte dos não-sinalizadores. Se no cotidiano de grandes cidades não raro veem-se grupos de surdos a sinalizarem (em ônibus, restaurantes, centros comerciais, ruas, etc.), os gestos que pronunciam em conversas “silenciosas” ainda são cercados de preconceitos e mal-entendidos pela maior parte da população ouvinte.
As línguas de sinais (L.S.) são sistemas de linguagem complexos que permitem um meio de interação cinésico-visual cheio de possibilidades para os seus usuários, e não um arremedo de gestos fortuitos, improvisados em uma forma de comunicação precária. As línguas de sinais, em toda as suas riquezas, são compostas por diferentes níveis linguísticos (fonologia, morfologia, sintaxe, semântica, etc.) cada vez mais investigados por pesquisadores de todo o mundo.
Distante do que muitos acreditam, as línguas de sinais não são criadas pela gestualização das línguas orais majoritárias, como um conjunto de gestos amarrados à gramática das línguas hegemônicas. Ao contrário de um código alternativo criado para suprir a impossibilidade de oralização das línguas majoritárias, tendo essas línguas orais como substrato norteador, as estruturas frasais das línguas gestuais obedecem a uma sintaxe própria, complexa, apoiada em uma gramática específica. Assim, como uma língua natural (e não artificial), desenvolve-se no seio dos povos surdos, na interação com outras línguas, nos usos e desusos de seus sinalizadores.
As línguas gestuais, como quaisquer outras línguas, não são estáticas, herméticas e imutáveis, mas mudam de acordo com as regiões em que são sinalizadas (variações diatópicas), de acordo com os diferentes estratos socioculturais de seus usuários (diastráticas) e consoante os momentos e as circunstâncias da enunciação (diafásicas). São sistemas dinâmicos, vivos, que a cada dia se refazem. Uma língua-rio que corre nas mãos de surdos e ouvintes, desaguando em diversos idioletos. A própria influência das línguas majoritárias sobre as línguas gestuais, intensificada pelo aumento da quantidade de sinalizadores não surdos [1], também recria a dinâmica das L.S.
Sua estrutura morfológica é constituída por parâmetros como configuração de mãos (formato das mãos na produção dos sinais), ponto de articulação (localização espacial das mãos na formação do gesto), movimento (das mãos), orientação (orientação, direção e sentido do movimento dos sinais os distinguem de outros) e expressão facial/corporal. Os quiremas [2] se desdobram em uma quantidade sem fim de significantes, fazendo das L.S. línguas tão ricas quanto outras.
A língua gestual não é uma representação pantomímica da realidade, ou um sistema puramente icônico. Grande parte dos gestos (sinais) é, assim como palavras, arbitrário, não guardando qualquer semelhança com a imagem dos objetos a que se refere. Esses significantes (gestos/sinais) tampouco são a soletração manual de palavras escritas. O sinal de “casa”, por exemplo, não é formado pelas letras “C-A-S-A” do alfabeto dactilológico das línguas de sinais, e também não é – necessariamente – uma representação icônica da imagem mental estereotipada de “casa”: enquanto na Língua de Sinais Brasileira (Libras) o item lexical que representa “casa” liga-se iconicamente ao objeto extra-linguístico, na Língua Gestual Portuguesa (LGP) o gesto em nada remete à materialidade da “coisa” apresentada [3]. Assim com outros tantos sinais, em outras várias línguas gestuais.
Já que citada de forma breve uma diferença entre a Libras e a LGP (duas línguas de sinais distintas em países que partilham uma mesma língua majoritária), vale ressaltar que as L.S. não são – como muitos ainda acreditam – universais. Cada país (algumas vezes, cada região autônoma dentro de um país) conta com uma ou várias [4] línguas de sinais diferentes, e cada grupo de sinalizadores expressa, por sua vez, características específicas quanto aos seus usos [5].
As dezenas de línguas de sinais espalhadas pelo mundo gozam de diferentes estatutos e representações sociais que variam de acordo com o contexto político, econômico e cultural dos países em que são usadas. Enquanto em alguns Estados as L.S. são reconhecidas como “línguas oficiais” ou meios de expressão legal (como é o caso do Brasil e de Portugal), ou dispõem de uma série de dispositivos constitucionais que as regulam, em outros sequer são mencionadas em pré-projetos de leis ou em agendas políticas de parlamentares.
O reconhecimento oficial das línguas gestuais não é meritório pelo simples fato de pôr em plano superior – com a chancela do governo – o prestígio das L.S., mas pelos desdobramentos práticos e políticos que implica. Ancorado em um substrato legal, desdobra-se na criação e no fomento de medidas (físicas e simbólicas) que asseguram a difusão e a efetivação do uso das L.S.: como a regulamentação de novas profissões (formadores, consultores, instrutores, intérpretes de línguas de sinais, etc.), a exigência de recursos de acessibilidade para o público Surdo (como as janelas de tradução em emissões televisivas ou os video relay services – VRS [6]), a criação e a valorização de espaços de ensino e investigação (cursos, oficinas, programas, exames e licenciaturas específicas), entre outras.
Um corolário de novos direitos, aos poucos – e com muita luta –, desdobra-se a partir de novas disposições legais, pavimentando o caminho para uma vida mais cheia de possibilidades para o povo surdo, em todas as suas diferenças.
Quando interpelados sobre as “linguagens de sinais”, muitos sujeitos envolvidos com as L.S. prontamente corrigem: “línguas de sinais”. A diferenciação entre linguagem e língua, bem como a constante ênfase desse estatuto, evidencia a batalha ideológica travada pelo reconhecimento das comunidades surdas como minorias linguísticas possuidoras de uma língua própria e autônoma e como espaços de reiteração das modalidades viso-motoras de comunicação, “livres” do jugo ouvintista e oralizador. “Língua, e não linguagem”, repete-se – incansavelmente! – aqui e alhures.
Pelo senso comum, também, ecoam questões como: “mas um surdo conseguirá discutir problemas complexos, que exigem uma profunda empreitada teórica, por meio das línguas de sinais?”, ou “a simplicidade das línguas gestuais permite que autores como Hegel e Heidegger sejam revisitados e explicados?”. Tais indagações desvelam a crença, quase inequívoca, de uma língua cheia de restrições e limitações, como um sistema compensatório e improvisado de comunicação, por isso pobre e incapaz de assegurar a abordagem de assuntos que exigem “abstrações” (como é referido em falas corriqueiras) e recursos linguísticos que vão além de termos simples, imediatos e concretos.
As línguas de sinais, em todas as suas riquezas e constantes transformações, garantem a capacidade de expressão e lucubração sobre quaisquer assuntos que possam ser abordados também em outras línguas, sem prejuízos para os seus usuários. A cada dia, milhares de novos gestos/sinais surgem no mundo para representar termos técnicos, nomes próprios ou conceitos específicos de dezenas de áreas do saber distintas.
Alguns Surdos (e ouvintes), em sua maioria escolarizados e/ou pesquisadores das línguas gestuais, dominam um tipo de notação que, graficamente, representa em texto escrito as L.S: o SignWriting (ou Escrita de Sinais).
“(…) o sistema pode representar línguas de sinais de um modo gráfico esquemático que funciona como um sistema de escrita alfabético, em que as unidades gráficas fundamentais representam unidades gestuais fundamentais, suas propriedades e relações. O SignWriting pode registrar qualquer língua de sinais do mundo sem passar pela tradução da língua falada. Cada língua de sinais vai adaptá-lo a sua própria ortografia” (STUMPF, 2007, p. 50).
Embora ainda não muito difundido, esse sistema de escrita vem possibilitando importantes registos de produções em línguas de sinais, preservando-as e eternizando-as sem a mediação e a interferência das línguas majoritárias. Em algumas escolas de surdos, esse tipo de notação gráfica é introduzido aos alunos, permitindo novas possibilidades de criação de textos escritos [7].
É sobretudo nessas escolas, em consonância com outros aparelhos culturais do povo surdo, que se dá o ensino e a aprendizagem das línguas de sinais e das práticas simbólicas das comunidades surdas. A aquisição das L.S. por crianças surdas acontece em processos semelhantes à aquisição da fala por crianças ouvintes. Ainda pequeninas, balbuciam os primeiros sinais (o “balbucio manual”), dando nomes e significados às novidades de um mundo por conhecer. E assim percorrem longos trajetos de aprendizagem, como outros tantos pequenos [8].
Muitas são as posições, as convicções e os conflitos sobre o ensino e o papel das línguas de sinais em escolas bilíngues-biculturais e em escolas regulares, dividindo surdos, ouvintes, profissionais e pesquisadores da área. Alguns defendem o ensino das L.S. como primeira língua (L1), seguido do aprendizado da modalidade escrita da língua majoritária; já outros optam pelo ensino da L2 em sua modalidade oral. Há os que defendem as línguas gestuais como línguas acessórias, reafirmando a primazia da oralidade; há os que se posicionam a favor de alunos surdos incluídos em escolas regulares, acompanhados de intérpretes, ou em salas especiais/bilíngues, com aulas de reforço no contra-turno. Nesse emaranhado de querelas e distensões no campo da Educação (e da Linguística), percebem-se as linhas móveis de poder (re)configuradas continuamente entre os diferentes atores sociais, que têm na língua um dos principais objetos de debates.

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[1] Aumento provocado, sobretudo, pela promoção das L.S. e pelo incremento da oferta de cursos e oficinas de formação.
[2] As unidades mínimas de significação: a menor unidade gramatical que se pode identificar, constituinte dos sinais, assim como os morfemas das línguas orais.
[3] Em Libras, o sinal de CASA é formado por duas mãos espalmadas que se tocam no topo de um triângulo, remetendo à imagem mental de uma casa. Em LGP, o gesto é indicado por uma mão fechada indo ao encontro da parte superior do peito, do lado oposto à mão utilizada.
[4] No Canadá, por exemplo, utilizam-se a American Sign Language (ASL) e a Langue des Signes Québécoise (LSQ), consoante a região do país. Também na Espanha, onde a Lengua de Signos Española (LSE), a Llengua de Signes Catalana (LSC) e outras variantes regionais são usadas por Surdos do país.
[5] Há algumas décadas, tenta-se promover o uso do “Gesto Internacional”, ou “Sinal Internacional”, um sistema linguístico criado e usado em alguns congressos, encontros, eventos e atividades que reúnem Surdos de diferentes países.
[6] Serviços de vídeo-interpretação que permitem a tradução das L.S. para a língua oral (e vice-versa) em comunicações à distância entre surdos e ouvintes, seja por telemóveis (celulares) ou por programas de conversação com vídeo em direto. Os gestos são captados em vídeo, traduzidos para a língua majoritária em uma central de VRS e comunicados ao interlocutor em algum outro sítio remoto. Também há o sistema de Video Remote Interpreting (VRI), em que um intérprete medeia à distância a conversa presencial entre surdos e ouvintes.
[7] Além do SignWriting, outros sistemas de notação das línguas de sinais já foram desenvolvidos, como a ASLWrite, o si5s, a Stokoe Notation, a SignFont, a ASLphabet, etc.
[8] Assim como crianças ouvintes atravessam diversas fases no processo de aquisição de língua (oral), crianças surdas passam por diferentes estágios na aquisição da língua de sinais, como os períodos pré-linguístico, o estágio de um sinal, o estágio das primeiras combinações e o estágio de múltiplas combinações (QUADROS, 1997)

Identidade Surda

Identidades Surdas

(Por Hugo Eiji)
Se eram antes percebidos como pessoas “portadoras” de uma enfermidade que as apequenava diante de um mundo ouvinte, ou como um grupo de deficientes (na acepção vulgar e redutora do termo) acolhidos com caridade por instituições filantrópicas-assistenciais, hoje muitos surdos enlaçam-se em lutas políticas, organizados em associações e movimentos populares, a reafirmar e reivindicar direitos.
O vocabulário das lutas surdas enche-se com palavras e expressões como “surdismo”, “ouvintismo”, “audismo”, “deafhood”, “identidades surdas”, “línguas de sinais”, etc. Velhos termos são problematizados, colocados em questão. Outros são ressignificados, promovidos e trazidos à baila na torrente de transformações dos olhares sobre a surdez.
Distante dos discursos do “corpo danificado” e dos compêndios da medicina, muitos sujeitos surdos lutam hoje pelo reconhecimento da surdez como uma, entre outras tantas, formas de estar no mundo – assumindo os conflitos e a complexidade que esta frase, de aparência ingênua, apresenta. Em inúmeras comunidades surdas, uma luta comum se desenha no dia-a-dia: a luta pelo reconhecimento da surdez como diferença.
“A diferença, como significação política, é construída histórica e socialmente; é um processo e um produto de conflitos e movimentos sociais, de resistências às assimetrias de poder e de saber, de uma outra interpretação sobre a alteridade e sobre o significado dos outros no discurso dominante” (SKLIAR, 2005b, p. 6).
Por uma ruptura epistemológica, a surdez abandona o campo discursivo das deficiências, da patologia e dos vários enunciados biomédicos e passa a ocupar um lugar privilegiado no campo dos estudos da cultura, das ciências sociais, da linguística, da educação e da antropologia, como um objeto novo a suscitar cada vez mais interesse por parte de militantes e investigadores. Para além de narrativas clínicas e de postulados médicos, falar e sinalizar sobre a surdez é adentrar em questões de identidades, expressões culturais, diferenças, lutas por conquistas e efetivações de direitos. Os deslocamentos de linguagem que aos poucos se promovem no terreno dos Estudos Surdos são, muito mais que revisões terminológicas, rompimentos com as epistemes [1] que sustentam discursos ouvintistas.
Ao contrário de visões caritativas, filantrópicas e paternalistas em relação aos sujeitos surdos, fundadas sobre a preeminência da falta, as novas compreensões concretizam a afirmação do Ser Surdo como uma possibilidade de existir, que se desdobra em uma série de expressões identitárias, distante da ideia de uma condição limitante e patológica que precisa ser superada.
A afirmação das identidades surdas é hoje uma das principais forças-motrizes das lutas desses grupos minoritários [2] em diferentes países do mundo. Identidade, aqui, entendida como um “processo de construção do significado com base num atributo cultural, ou ainda um conjunto de atributos culturais inter-relacionados, o(s) qual(is) prevalece(m) sobre outras formas de significado” (CASTELLS, 2001, p. 3), enfatizada em seu aspecto transitório, contraditório, impermanente, contingente e não essencializado:
“A identidade torna-se uma ‘celebração móvel’: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam (Hall, 1987). É definida historicamente, e não biologicamente. O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um ‘eu’ coerente” (HALL, 2006, p. 13).
A afirmação da(s) identidade(s) surda(s), por conseguinte, não decorre imediata e inexorável da condição biológica do não ouvir (da surdez inscrita no corpo); antes, funda-se em uma série de pressupostos políticos e culturais (e, por isso, históricos) que permitem aos sujeitos surdos novas, e possíveis, representações, significações e categorias sociais.
As inúmeras possibilidades de se vivenciar a surdez são reguladas, sugeridas, construídas, promovidas, problematizadas, negadas ou condenadas, cultural e historicamente. Desfaz-se o determinismo biológico que imputava ao sujeito “anormal” a via única da reabilitação. Por essa perspectiva, desessencializam-se e desnaturalizam-se as experiências surdas: para além de uma expressão causal e essencializada da materialidade do “corpo danificado”, entendem-se as identidades surdas como produzidas e constantemente redefinidas pelo contexto histórico e pelas relações de poder que se estabelecem em nossas sociedades. E como fontes de significação, produzidas por atos de criação linguística, tais identidades forjam formas de distinção entre um “eu” e os “outros”, entre “nós” e “eles”, continuamente reforçadas.
Nesse reconhecimento de novas identidades, assim, firmam-se as atribuições das diferenças e da significação do “eu” e do “outro” nos discursos dominantes, delimitando novos campos de lutas e resistências das comunidades surdas.
Gladis Perlin (2005), investigadora surda brasileira, cita algumas das várias identidades comuns entre o povo surdo (aqui, entende-se “povo surdo” como um conceito lato e abrangente: a população total de surdos, sejam usuários de línguas gestuais, sejam oralizados, sejam participantes ou não das comunidades surdas).
Entre diferentes identidades, Perlin aponta as identidades surdas (que muitos autores destacam pelo uso da letra inicial maiúscula: o “Surdo” [3]) como presentes em grupos de sujeitos que fazem uso da comunicação visual (as línguas gestuais) e partilham das comunidades e culturas surdas. Diversas práticas simbólicas, narrativas pessoais e discursos de resistência de muitos indivíduos Surdos tocam-se em uma série de pontos comuns, criando uma tênue linha que tece vínculos comunitários e (re)define a experiência da alteridade. No seio dos movimentos e dos espaços onde são interpelados à reafirmação identitária centrada no “ser Surdo”, a autora ressalta ainda a identidade política surda: “Trata-se de uma identidade que se sobressai na militância pelo específico surdo” (PERLIN, 2005, p. 63).
Como uma identidade de resistência, o específico Surdo firma-se na oposição à representação da surdez como menos-valia e no esforço contrário às investidas totalizadoras e homogeneizadoras das práticas de normalização ouvintistas. A assumpção da identidade Surda funda-se na oposição ao “ser ouvinte” e, assim como outros discursos identitários, atua de forma aglutinadora e mobilizadora (e, por isso, muitas vezes também totalizante e normalizadora). A experiência visual, o uso e a promoção das línguas gestuais como línguas primeiras e a partilha das comunidades e das práticas culturais surdas firmam-se como os principais eixos dessas expressões de identidades.
Em sujeitos que, nascidos ouvintes, tornaram-se surdos, a investigadora aponta as identidades surdas híbridas. Falantes nativos das línguas orais majoritárias, com experiência do mundo sonoro, a surdez e as línguas de sinais fazem-se condições sobrevindas ao universo da fala e da audição. “É uma espécie de uso de identidades diferentes em diferentes momentos” (PERLIN, 2005, p. 63), com a apropriação da língua gestual como segunda língua.
Ainda, a identidade surda de transição expressa-se em surdos que, após anos de “cativeiro da hegemônica experiência ouvinte” (PERLIN, 2005, p. 64), passam a frequentar as comunidades surdas e a partilhar das práticas simbólicas desses grupos. As novas interações surdo-Surdo, o aprendizado das línguas de sinais, as novas representações e discursos, aos poucos, refazem as formas de olhar, sentir, pensar e expressar o mundo desses sujeitos que vivenciam – em fase de transição – a des-ouvintização das representações da identidade.
Como grande parte dos surdos são filhos de pais ouvintes, não raro distantes das comunidades surdas e das línguas de sinais, o momento de descoberta (sejam ainda crianças, jovens ou adultos) de um novo mundo Surdo é comumente ressaltado com entusiasmo nas narrativas autobiográficas de muitos desses sujeitos: marcam-se como um ponto de mutação em que novos horizontes engraçam o olhar e, aos poucos, põem-se a desafiar a ideologia do normal.
“Os Surdos ‘apátridos’, filhos de pais ouvintes, têm nas suas memórias subterrâneas o sentimento de exclusão em relação às suas famílias de ouvintes. A ausência de uma língua competente, por mais de dez anos, leva muitos desses sujeitos a pensarem que estavam sozinhos no mundo, impossibilitando a construção do seu passado e futuro” (LONGMAN, 2007, p. 42).
A antiga sensação de despertencimento parece ganhar novos contornos na aproximação com o outro-Surdo e no encontro com as novas possibilidades de “ser” e de se comunicar. Esses momentos, em que prevalece a expressão da identidade surda de transição, para muitos figuram como tempos de redenção.
Em surdos que se distanciam das identidades, comunidades e culturas Surdas, figurariam as identidades surdas incompletas, como subjugadas à ideologia ouvinte dominante.
“A hegemonia dos ouvintes exerce uma rede de poderes difícil de ser quebrada pelos surdos, que não conseguem se organizar ou mesmo ir às comunidades para resistirem ao poder. Aí pode dar início ao que chamo de situações dominantes de tentativa de reprodução da identidade ouvinte, com atitudes ainda necessárias para sustentar as relações dominantes” (PERLIN, 2005, p. 64).
Vale ressaltar, mais uma vez, o caráter transitório, contraditório, contextual e contingente da ideia aqui assumida de identidade. Não como estados absolutos, permanentes e monolíticos que configuram e conformam de forma inabalável o sujeito, as várias identidades surdas – como construtos históricos e não como essenciais – são constantemente refeitas nas interações com o mundo ouvinte, nas encruzilhadas com os discursos dominantes e na convivência com o outro-surdo.
A celebração das identidades surdas, no que diz respeito aos seus caráteres inconstantes, imprevisíveis, não fixos, rejeita e opõe-se à ideia de essência que tanto assola o cotidiano da surdez.
“Reconhecer-se numa identidade supõe, pois, responder afirmativamente a uma interpelação e estabelecer um sentido de pertencimento a um grupo social de referência. Nada há de simples ou de estável nisso tudo, pois essas múltiplas identidades podem cobrar, ao mesmo tempo, lealdades distintas, divergentes ou até contraditórias. Somos sujeitos de muitas identidades. Essas múltiplas identidades sociais podem ser, também, provisoriamente atraentes e, depois, nos parecerem descartáveis; elas podem ser, então, rejeitadas e abandonadas. Somos sujeitos de identidades transitórias e contingentes” (LOURO, 2000, p. 6).
Assume-se, neste texto e neste blog, as tipologias identitárias citadas por Perlin (2005), entendendo-as como definições terminológicas fundadas sob uma perspectiva Surda, com intencionalidades políticas claras e atuais, como a valorização, a promoção e a defesa dos direitos dos Surdos e das comunidades surdas, com ênfase em seus patrimônios linguísticos e culturais.
Alguns pormenores precisam ser postos, porém, em uma breve paragem que se quer segura em meio a arames-farpados.
Investigar a surdez, o povo surdo, as comunidades e culturas surdas, é adentrar por um universo heterogêneo, cheio de contradições, atravessado por um sem-fim de fatores, ligados ou não ao atributo surdo.
Há diferentes tipologias e etiologias da surdez (surdez leve, moderada, severa ou profunda; condutiva, neurossensorial, mista, etc). Há surdos congênitos [4], surdos pré-linguísticos [5] e pós-linguísticos [6]. Há surdos usuários das línguas de sinais, há surdos oralizados, há surdos que transitam – sem grandes constrangimentos, nem dificuldades – entre os gestos e a fala. Há surdos usuários de aparelhos auditivos (Aparelhos de Amplificação Sonora Individual – AASI), há surdos implantados (Implantes Cocleares – IC), há surdos que, por uma série de motivos, rejeitam e desdenham quaisquer tipos de próteses. Há surdos filhos de pais ouvintes (a grande parte dos surdos), há surdos filhos de pais surdos. Entre esses e tantos outros “hás”, emerge um mundo de diferenças ligadas à surdez.
Em países como o Brasil, ou em outros em que a pobreza é um problema comum a grande parte da população, a Surdez (como outras expressões identitárias) enovela-se a uma série de fatores sócio-econômicos, sendo por eles redefinida.
Assim, antes de se adentrar por discussões como “oralização x língua de sinais”, “inclusão no ensino regular x promoção de escolas bilíngues”, “uso ou não de próteses eletrônicas”, etc., faz-se necessário salientar o fato de que (em muitas partes do mundo) uma parcela considerável do povo surdo sequer tem acesso à educação formal, a serviços básicos de saúde ou ao lazer, tampouco contato com outras pessoas Surdas. Muitas vezes são alijados não só de uma vivência escolar como do aprendizado de uma língua (seja oral ou gestual), ficando – quando muito – restritos ao uso de sinais caseiros, convencionados e articulados em âmbito doméstico.
A miséria, a falta de acesso à educação e ao sistema de saúde, as condições precárias de subsistência, entre outros problemas sociais, produzem formas ainda mais perversas de marginalização, reforçando e refazendo situações excludentes já impostas a sujeitos surdos. As “exclusões” (ou “inclusões perversas” em estruturas sociais injustas, flageladas pelos interesses do grande capital) dão-se em várias instâncias e por vários fatores (raciais, étnicos, econômicos, ligados a questões de gênero, etc.) que as legitimam e as reproduzem.
Assim, destaca-se a importância de se redefinir as experiências da surdez enredadas entre diferentes condições materiais e entre várias expressões identitárias, sem imaginá-las unívocas, essencializadas, totalizantes e (re)produtoras de expectativas e comportamentos únicos. A surdez, por isso, é entendida como um entre outros vários fatores que atravessam os sujeitos.
Evangélicos, muçulmanos, budistas, negros, brancos, indígenas, moradores de grandes centros urbanos, habitantes de pequenos vilarejos rurais, pobres, ricos, heterossexuais, gays, universitários, não escolarizados, asiáticos, latino-americanos… Inúmeras categorias compõem, fluidas e emaranhadas ao atributo surdo (em todas as suas diferenças), um mosaico impermanente que recria, em incontáveis combinações, infinitas possibilidades de “estar no mundo”, marcadas por uma série de conflitos e distensões.
Falar em povo surdo, assim, não é assumir a imagem cristalizada de um sujeito Surdo usuário de língua gestual, que partilha das comunidades e das práticas culturais Surdas; tampouco é reforçar estereótipos ouvintizadores da surdez. É, antes, atentar à diferença e entender esse universo como um campo de forças complexo, não harmônico, movimentado por diferentes atores e lugares do discurso.
Neste blog, enfatizam-se os grupos Surdos usuários de línguas de sinais, que partilham das comunidades e culturas surdas, promovendo suas lutas, práticas e produções culturais.

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[1] Aqui se entende episteme como o solo de onde crescem as várias redes de enunciados, significados e discursos que permeiam a surdez.
[2] “Grupo minoritário”, aqui, é entendido como “um lugar onde se animam os fluxos de transformação de uma identidade ou de uma relação de poder. Implica uma tomada de posição grupal no interior de uma dinâmica conflitual” (SODRÉ, 2005, p. 12). Com algumas características básicas, como a vulnerabilidade jurídico-social, a manutenção de lutas contra-hegemônicas e a criação de estratégias discursivas de resistência, a noção de minorias “refere-se à possibilidade de terem voz ativa ou intervirem nas instâncias decisórias do Poder aqueles setores sociais ou frações de classe comprometidos com as diversas modalidades de luta assumidas pela questão social” (SODRÉ, 2005, p. 11).
[3] Diferenciação adotada em várias línguas (Deaf, Sourd, Sordo, etc.) para indicar sujeitos que assumem as identidades surdas e as identidades políticas surdas.
[4] Nascidos surdos.
[5] Pré-linguais ou pré-locutivos: que perderam a audição antes da aquisição da língua oral.
[6] Pós-linguais ou pós-locutivos: que perderam a audição após a aquisição da língua oral.

Regionalismo

Mesmo sem som, a Libras (Língua de Sinais Brasileira) também tem variações regionais, a ponto de ser possível identificar um surdo do nordeste ou do sul só com base no seu gestual. 

Rachel Bonino

Paola Ingles Gomes cursa a 8ª série em São Paulo numa tradicional escola municipal para deficientes auditivos no bairro da Aclimação, a Helen Keller. Como outros colegas adolescentes, costuma ir à festa junina promovida pelo Instituto Santa Teresinha, um evento que virou referência entre estudantes surdos de todo o país. Paola conversava com um amigo de outro estado numa dessas comemorações anuais quando, entre risos, sinalizou que ele era um "palhaço", um tolo. O sinal usado indicava uma bola no nariz, assim como usam os palhaços. O rapaz não entendeu a "gíria" e coube a Paola indicar o contexto da palavra, por meio de outros sinais. Casos assim se repetem a cada interação entre deficientes auditivos de regiões diferentes, mas que adotam a mesma gramática gestual adotada pela Libras, sigla para Língua de Sinais Brasileira. Nesse universo sem sons, há gírias, regionalismos e até mesmo o que podemos chamar de sotaques.

De fato, determinados termos possuem variações maiores ou menores quando "pronunciados" por gestos. Só a palavra "abacaxi", no sortido espectro de variantes em forma de gesto, tem ao menos cinco sinais diferentes em todo o país, com pequenas mudanças de movimentos entre os compartilhados por Bahia e Pará e os usados no Mato Grosso ou em Santa Catarina.

A Libras é reconhecida desde 2002 por lei federal (ver quadro). Tem como base cinco parâmetros:  a direcionalidade (para onde as mãos e o rosto se dirigem), o ponto de articulação (de onde parte o movimento), a configuração de mão, o movimento propriamente dito e as expressões faciais e corporais. A variedade lingüística dos sinais ocorre, em alguns estados, quando se modifica ao menos um desses parâmetros.

- É como se houvesse uma "pronúncia" diferente. É um tipo de sotaque, só que sem som - afirma a lingüista Tanya Amara Felipe, professora da Universidade de Pernambuco (UPE) e coordenadora do Programa Nacional Interiorizando a Libras.

Dizer sem falar

Quase não existem pesquisas sobre variações regionais em Libras, mas já há base empírica para os estudiosos arriscarem configurações. A psicóloga Walkiria Duarte Raphael, uma das autoras do Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilíngüe da Língua de Sinais Brasileira (Edusp, 2001), diz conseguir identificar um r arrastado nos sinais dos surdos cariocas.

- Eu, lidando com os diferentes sinais, percebo que no Rio eles soletram mais arrastado, embora não exista estudo com base científica sobre o assunto. Os surdos que oralizam bem [que reproduzem com os lábios as palavras sinalizadas] acabam falando junto com o sinal. E aí também se consegue perceber o sotaque. É possível sentir claramente isso, no sinal - diz.

Embora não haja equivalência entre o verbo e os gestos de cada lugar, os sotaques dos sinais parecem acompanhar as sutilezas das falas de cada região. Para Walkiria, é possível perceber a diferença regional pela observação da mão de apoio - é comum que os surdos destros façam o movimento com a mão direita e a esquerda sirva de suporte. No Rio de Janeiro, segundo a estudiosa, a maioria dos sinais é feita com a mão de apoio fechada. Em São Paulo, a mão de apoio é aberta.

- Essa é uma diferença que notei quando estava juntando os sinais para o dicionário. Isso pode ser considerado um sotaque? Pode - diz Walkiria.

Sueli Fernandes, lingüista , assessora técnico-pedagógica do Departamento de Educação Especial da Secretaria de Estado da Educação do Paraná, concorda:

- Sejam faladas ou sinalizadas, é próprio das línguas a pluralidade de manifestações. A unidade lingüística é um mito mesmo na linguagem por sinais - analisa a profissional, que também é colaboradora do Libras é Legal, projeto de difusão da língua coordenado pela seccional do Rio Grande do Sul da Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis-RS).

Ambiente virtual

Coordenadora do curso a distância de Letras-Libras na Universidade Federal de Santa Catarina, único nos moldes no país, a lingüista Ronice Müller de Quadros mantém contato com 500 alunos de nove estados no ambiente virtual. Desse total, 447 são surdos. A quantidade de sinais variantes é tão grande que eles criaram um glossário para padronizar aqueles usados e criados no curso.

- Dá para identificar quem não é  de Santa Catarina pela variação dos sinais, e pelas diferentes expressões faciais e corporais - conta.

Ela lembra que os falantes do Rio de Janeiro costumam usar muito o alfabeto manual na comunicação. Ou seja, no lugar do sinal, em muitas situações, o termo é soletrado. Característica que não é típica dos usuários de São Paulo, segundo Ronice.

- Os surdos do Norte do país se apóiam bastante nas expressões facial e corporal. O tamanho do sinal é maior, ocupa mais espaço. Mas essa diferença não tem implicação no significado do sinal. Manaus, por exemplo, é um dos pólos em que os estudantes apresentam mais variações. Talvez pelo fato de estarem muito distantes - analisa.

Mas nem sempre os surdos encararam com bons olhos o contato com sinais de outras regiões. No início da produção da primeira edição do dicionário, a psicóloga Walkiria Raphael - que atualmente trabalha na segunda edição do livro (ver quadro) - percebeu que diante de um termo diferente os surdos tendiam a dizer que aquele sinal estava "errado". Hoje,  as variações são mais aceitas.

- A própria comunidade surda tinha uma rixa. Daí a resistência dos surdos que estavam nos ajudando, na elaboração do dicionário, de incluir sinais que não são usados em São Paulo. Tínhamos de convencê-los de que aquele sinal era representativo para determinada região. Havia bairrismo - diz.

Se no caso do sotaque os sinais envolvidos têm diferenças sutis de estado para estado, no caso dos regionalismos, ao contrário, as mudanças são totais. A linha de pensamento é a mesma da palavra "mandioca" com suas variações "macaxeira" e "aipim". A mesma palavra, "abacaxi", tem sinais muito diferentes, como os de São Paulo e os do Rio de Janeiro. Dá pra dizer então que os sinais regionais são aqueles que representam a mesma coisa só que com ponto de articulação, movimentos, direcionalidade e expressões faciais, todos diferentes.

- Quando comparamos sinais usados por jovens surdos e surdos idosos, nas associações, por exemplo, percebemos mudanças na forma e no conteúdo dos sinais, por vezes até condenados pelos mais velhos que se orgulham de utilizar "sinais puros", sem a interferência do português, tal como o fazem as gerações atuais.

Nova geração

O atual cenário educacional é responsável por uma revolução na cultura surda. No passado, o isolamento era grande. Os sinais eram passados de geração a geração e se restringiam à representação do cotidiano, nada muito específico. Hoje, a presença no ambiente escolar tem estimulado a criação de muitos novos sinais, já que há disciplinas e termos técnicos, além de permitir o contato do estudante com os sinais de outras regiões. A estrutura que, nesse processo, mais tem sido renovada são os substantivos.

- Sinais vêm sendo criados, simultaneamente, em diferentes regiões, para atender às necessidades de conceituação e comunicação, repercutindo na ampliação do léxico. A especificidade das disciplinas e seus objetos de estudo requer um vocabulário técnico sinalizado que, enquanto não padronizado, contribui para a fomentação dos regionalismos - analisa Sueli Fernandes.

Algumas instituições de ensino que têm salas mistas - com alunos surdos e ouvintes - já estruturaram equipe para apoiar o contato entre professor e estudante durante as aulas. Sidney Feltrin é tradutor e intérprete de Libras há 12 anos. Há dois, ele trabalha com mais seis profissionais na Universidade Cidade de São Paulo (Unicid), que tem sete alunos surdos.

- Todos os sinais criados em sala de aula são encaminhados à Feneis para que sejam disseminados e adotados nas demais universidades do país, criando assim um padrão - conta.

Sinais de guetos

Além da linguagem mais técnica e específica, a escola ou faculdade coloca o deficiente auditivo em contato com outros grupos que não a própria família e os colegas. Só esse fator é responsável pela criação de mais uma penca de novos sinais usada no bate-papo dos corredores. Na escola municipal Helen Keller, em São Paulo, os jovens do ensino fundamental e do médio têm suas próprias gírias, muitas vezes variando de sala para sala, de panelinha a panelinha.

É inegável que a língua portuguesa acaba por determinar a constituição de vários elementos semânticos, estruturais e discursivos da língua de sinais. Isso não deixa de acontecer também no universo das gírias. É o caso do xingamento "palhaço", usado pelos alunos da escola com o mesmo sentido da língua portuguesa. Na Helen Keller, os estudantes também criaram seus próprios sinais para Orkut e MSN (programa de conversa on-line).

Assim como no português, a língua de sinais também registra os idioletos, ou seja, as maneiras únicas no modo de falar ou sinalizar de um indivíduo. Diferenças de idade, escolaridade, maior ou menor contato com a comunidade surda, tudo isso aumenta a diversidade de sinais.

- Todos os usuários da Libras conseguem comunicar-se uns com os outros e entendem-se bem, apesar de não haver sequer dois que façam sinais da mesma maneira - explica a lingüista Lodenir Becker Karnopp, também professora do curso Letras-Libras na UFSC.

Nesse mar de sinais e variações, quem não é surdo pode pensar que o entendimento entre os deficientes auditivos de estados diferentes fica quase impossível. Basta lembrar a quantidade de palavras usadas na língua portuguesa e suas variações, tão criativas quanto as dos sinais.

- Há, sim, uma tentativa de padronização das associações de apoio ao surdo. Há muitos sinais que já são padronizados e usados em congressos, por exemplo. Mas é preciso respeitar a diversidade - comenta Walkiria Duarte.

A mesma diversidade, aliás, que torna a Libras e a língua portuguesa admiradas pelos seus usuários.


FONTE: http://revistalingua.uol.com.br/