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terça-feira, 14 de abril de 2015

Comunidades Surdas

Comunidades Surdas

(Por Hugo Eiji)
As comunidades surdas, como espaços de partilha linguística e cultural presentes em milhares de cidades do mundo, reúnem Surdos e ouvintes – em geral, usuários de línguas de sinais – com interesses, expectativas, histórias, olhares ou costumes comuns.
A ideia de comunidade, aqui, apoia-se na presença de vínculos simbólicos que congregam sujeitos – concentrados em um mesmo local ou dispersos territorialmente – com interesses comuns e propostas coletivas. O termo, corrente nos Estudos Surdos e entre militantes e profissionais ligados à causa Surda, é comumente usado em sua acepção ampla (por vezes, de forma aligeirada e vaga) para delimitar os espaços de existência (e resistência) de uma minoria linguística com marcadores culturais próprios.
Sobre o uso do termo, autores como “Lane, Hoffmeister e Bahan (1996) descartam ‘comunidade surda’ por considerarem muito inclusivo e preferem a expressão ‘mundo surdo’, restringindo-o apenas àqueles que usam a língua de sinais e se identificam com a cultura surda” (MAGNANI, 2007, p. 3).
Neste blog, usa-se a expressão “comunidades surdas”, em sua acepção ampla, para designar o conjunto de Surdos e ouvintes unidos por uma série de afinidades e vínculos simbólicos. A escolha lexical, em consonância com o uso corriqueiro, tem antes a intenção de tornar operativa a expressão nesse (con)texto virtual que apontar para qualquer problematização ou aprofundamento sociológico.
Entende-se “comunidade surda” como um espaço de trocas simbólicas em que as línguas de sinais, a experiência visual e os artefatos culturais surdos são partilhados entre sujeitos Surdos (e ouvintes) que congregam interesses comuns e projetos coletivos. Um espaço que acena para outras possibilidades de existir e vivenciar a diferença, para além das práticas e discursos ouvintistas.
“Para que um grupo se constitua e se configure como uma comunidade, algumas condições são necessárias. Temos como exemplos: afinidades entre os diferentes indivíduos que constituem o grupo, interesses comuns que possam conduzir as ações do grupo por caminhos comuns, continuidade das relações estabelecidas, bem como tempo e espaço comuns, em que os encontros do grupo possam acontecer” (LOPES; VEIGA-NETO, 2006, p. 82).
A formação das comunidades surdas, onde as forças hegemônicas (ouvintistas) são refratadas por novos olhares e práticas sobre a surdez, decorrem – em grande medida – da expressão de identidades de resistência [1] e identidades de projeto [2] de parte do povo surdo, como as define Castells (2001).
Aqui, nega-se a surdez biológica, inscrita no corpo, como elemento restritivo de pertença. Pela perspectiva aqui anunciada, entende-se que as comunidades surdas são também formadas por diferentes sujeitos ouvintes (como familiares de surdos [3], cônjuges, amigos, intérpretes de línguas de sinais, profissionais que trabalham com a surdez, etc.), entre outros que tomam parte nas diferentes atividades desses grupos.
Dentre os lugares de realização das comunidades surdas, hoje, destacam-se Associações de Surdos, grêmios desportivos, escolas e instituições, festas e eventos, pontos de encontro [4], espaços de convívio, ambientes virtuais, reuniões familiares, etc. Lopes e Veiga-Neto (2006) citam a proeminência da escola de surdos como território de aproximação e convivência, onde “são estabelecidos modelos de ser surdo, servindo como balizas para que ações de normalização sejam investidas na e pela própria comunidade surda, quando essa estabelece um tipo normal de ser surdo a ser seguido” (LOPES; VEIGA-NETO, 2006, p. 83).
É nas comunidades surdas, na interação com o outro-surdo e com o mundo ouvinte, que diferentes trajetórias se encontram, que – na multiplicidade de vozes e de sinais – recriam-se as identidades Surdas, as narrativas pessoais, os marcadores culturais, as lutas e os discursos que permeiam os grupos Surdos. Os próprios conceitos subjacentes ao “ser Surdo” são produzidos e reconstruídos, em parte, na experiência das diferentes comunidades: “alguns enfatizam mais os aspectos políticos, outros os aspectos referentes à língua de sinais e artes, alguns mantêm um tipo ‘ser surdo’ como minoria, como comunidade, como povo” (PERLIN; MIRANDA, 2003, p. 220).
A busca pelo semelhante, por segurança, conforto e interlocutores possíveis, que compartilham formas de comunicação visual, além de expectativas e projetos comuns, fazem das comunidades surdas espaços de respiro para muitos sujeitos, onde podem conviver – ao contrário do que acontece alhures – sem as marcas estigmatizantes carimbadas por olhares ouvintes.
Embora espalhadas por diferentes cidades do mundo, inseridas em culturas e contextos bastante distintos, as milhares de comunidades surdas apresentam uma série de afinidades, bandeiras, práticas e projetos comuns. A população global de Surdos é atualmente estimada em algumas dezenas de milhões de indivíduos, o tamanho de um país mediano; “no entanto, é um ‘país’ sem um ‘sítio’ próprio. É uma cidadania sem uma origem geográfica” [5] (WRIGLEY, 1997, p. 13).
Com a profusão de novos recursos tecnológicos, as interações entre surdos e surdos/ouvintes, local e globalmente, ganharam novos tracejados. Se antes a comunicação presencial, imediata, era das poucas formas possíveis de partilha entre surdos, hoje – com a rica variedade de aparelhos e gadgets eletrônicos – as trocas comunicativas, os registos e o acesso a informações e produções culturais próprias se dinamizaram, estreitando e fortalecendo os vínculos entre partes do povo surdo, mesmo que física e geograficamente distantes.
Mensagens de texto trocadas entre celulares, dispositivos de captura e partilha de vídeos que permitem conversas à distância (em língua gestual) e possibilitam o registo e a promoção de produções culturais, aplicativos e redes sociais virtuais que congregam e fomentam o compartilhar de ideias, ideais, notícias, histórias, ficheiros, entre outros novos suportes que medeiam os processos informacionais e comunicativos entre surdos e surdos/ouvintes dão novos poderes de articulação e mobilização a esses grupos.
As comunidades surdas, assim, divulgam-se, empoderam-se, reconfiguram-se, reterritorializam-se, ganham novas e movediças fronteiras, tendo a Internet como uma das mais importantes interfaces de afirmação identitária. Aqui, em ambiente virtual, por meio de textos, vídeos, imagens, blogs, encontros, discussões, etc., reverberam novos discursos sobre a alteridade.

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[1] “(…) criada por actores que se encontram em posições/condições desvalorizadas e/ou estigmatizadas pela lógica da dominação, construindo, assim, trincheiras de resistência e sobrevivência com base em princípios diferentes dos que permeiam as instituições da sociedade, ou mesmo opostos a estes últimos” (CASTELLS, 2001, p. 4).
[2] “(…) quando os actores sociais, servindo-se de qualquer tipo de material cultural ao seu alcance, constroem uma nova identidade capaz de redefinir a sua posição na sociedade e, ao fazê-lo, de procurar a transformação de toda a estrutura social” (CASTELLS, 2001, p. 5).
[3] Nesse universo, algumas siglas e expressões são comumente repetidas, como os termos CODA (Children of Deaf Adult, filhos de pais surdos), SODA (Sibling of Deaf Adult, irmãos de surdos) e TILS (Tradutor e Intérprete de Língua de Sinais).
[4] Muitos deaf spaces são encontrados pelo mundo, de praças e restaurantes a carruagens de comboios, como a carruagem para “deficientes físicos” dos comboios de Mumbai, um espaço comumente usado por Surdos da cidade, como descreve Kusters (2009).
[5] “Yet it is a ‘country’ without a ‘place’ of its own. It is a citizenry without a geographical origin”.

Congresso de Milão

Congresso de Milão

(Por Hugo Eiji)
Se as abordagens gestualistas defendiam a primazia das linguagens (e línguas) de sinais na instrução do sujeito surdo, assumindo-as como língua primeira nos afazeres escolares e em outras situações de interação entre esses indivíduos, as práticas oralistas opunham-se ao gesto, afirmando-o como um sistema precário de comunicação, como um esforço que em muito atrapalhava o aprendizado da fala. Esses dissensos e distensões no campo político/pedagógico da surdez desdobraram-se em novas proposições que alteraram radicalmente o dia-a-dia e o destino de muitos indivíduos surdos. Tais mudanças cristalizaram-se e oficializaram-se, sobretudo, por meio do Congresso de Milão, em 1880.
Sete dias de discussões, apresentações e votações, entre 6 e 11 de setembro de 1880, em Milão, Itália, coroaram os pressupostos oralistas. As resoluções foram quase unânimes, contando com poucas, e isoladas, oposições: às escolas de surdos cabia o ensino da fala como meio de inserção do surdo em um mundo ouvinte. Os gestos? Que fossem banidos. As práticas bimodais que utilizavam sinais em simultaneidade com a fala também foram rejeitadas. O oralismo puro, como acordado por grande parte dos mais de 170 membros do Congresso (em sua quase totalidade ouvintes), foi apontado como a melhor abordagem para a educação de surdos.
As oito resoluções ali decididas por educadores de diferentes países acenavam para a incontestável superioridade da língua oral como meio privilegiado de acesso ao conhecimento. E o oralismo puro, sem a interferência de qualquer sistema gestual, foi ratificado oficialmente, naquele momento, como a abordagem preferível em escolas e instituições para surdos.
Tais resoluções pautaram-se em uma série de premissas que permeavam as concepções da época sobre a surdez.
As práticas de normalização do corpo “anormal” por meio de investidas biomédicas, terapêuticas e pedagógicas, bem como a desvalorização das línguas de sinais, sustentavam a oposição de muitos profissionais à assumpção das pedagogias gestualistas. Como afirma Skliar (2005a), o Congresso de Milão constituiu não o começo do oralismo, mas a sua legitimação oficial. Tratou-se de um marco histórico que cristalizou a hegemonia do ouvir e do falar, e que se desdobrou em uma série de reformulações nas estruturas, nos currículos e nas metodologias de várias instituições de então.
Skliar (2005a) ainda cita outros pressupostos que sustentavam o ideário oralista. Entre eles, pressupostos filosóficos, religiosos e políticos.
Por uma perspectiva filosófica, as linguagens gestuais figuravam como sinônimo de obscuridade do pensamento: a razão só seria acessível pelo domínio da palavra falada, de acordo com as bases aristotélicas já citadas. A “linguagem mímica”, como a percebiam alguns, ligava-se ao primitivo, ao rude, a um meio de comunicação precário e limitado. As formas manuais estariam, sob essa compreensão, muito aquém da complexidade e das possibilidades das línguas orais.
Do ponto de vista religioso, um surdo não oralizado não partilharia a língua em que se fundamenta a doutrina cristã: a língua dos escritos sagrados, das liturgias, das relações sacramentais com os pontífices. Sem o domínio da língua vernácula, não seria possível ao indivíduo surdo confessar-se ou ter acesso à palavra de Deus.
Ainda, por uma óptica política, havia novas demandas para se acabar com dialetos locais, favorecendo os esforços unificadores por que passavam algumas regiões europeias (como a Itália e a Alemanha). A(s) língua(s) majoritária(s) era(m) um dos principais meios de afirmação identitária e, por isso, seu reforço e aprendizado era de vital importância para a formação/unificação dos novos Estados-nações.
Assim, as propostas oralistas contaram com a chancela oficial do Congresso de Milão, fazendo de grande parte das escolas para surdos espaços de reabilitação, de ortopedia da fala, de normalização de indivíduos “anormais”.
Professores surdos foram afastados da docência; as línguas de sinais, já banidas da maior parte das instituições de ensino para surdos, postas à marginalidade; e os discursos médico-terapêuticos fizeram-se hegemônicos no domínio da surdez (sobretudo na Europa).
Durante boa parte do século XX, o oralismo vigorou como abordagem predominante nas instituições de ensino para surdos de diferentes países do mundo. A proscrição dos sistemas gestuais em salas de aula, bem como a proibição das línguas de sinais em ambientes escolares, justificavam-se, sobretudo, pelo argumento de que a comunicação manual prejudicava e desestimulava o aprendizado da língua oral. O uso de linguagens viso-espaciais, como se cria, tornava os surdos “preguiçosos” para a fala. Em muitas instituições, alunos eram castigados quando flagrados a sinalizar; em outras, mãos chegavam a ser amarradas para se evitar a propagação do gesto.
Os discursos médicos fizeram-se hegemônicos, e à escola para surdos coube um espaço de reabilitação e terapia da fala, onde diferentes metodologias eram aplicadas para a correção e a cura da surdez. Com o desenvolvimento de novas próteses e aparelhos auditivos, bem como de novas tecnologias usadas nos afazeres pedagógicos, a apropriação de modelos e comportamentos ouvintes tornou-se exigência ainda maior para grande parte das crianças e jovens surdos, seja em âmbito familiar, seja nas escolas/asilos em que eram institucionalizadas.
Os discursos patológicos sobre a surdez reacenderam-se, reforçados pela valorização de uma norma ouvinte construída por uma trama de narrativas e dispositivos que teciam uma ideologia ouvintista. Dos surdos cobravam-se a fala, a leitura orofacial, os treinamentos auditivos, a eliminação dos gestos, os comportamentos ouvintes, os esforços de reabilitação e o isolamento em relação às comunidades surdas. O défice auditivo e a representação do surdo como um doente/incapaz faziam-se lastro para uma série de medidas compensatórias que buscavam a normalização desses sujeitos. O corolário da hegemonia ouvintista e das resoluções do Tratado de Milão estendeu-se por diferentes países, privando muitos surdos de uma primeira língua possível (as línguas de sinais) e da convivência em comunidades em que vigoravam práticas culturais comuns.
A tutela do outro ouvinte, sabedor do mundo sonoro e referência de normalidade, (re)criava relações de poder que subalternizavam e apequenavam os surdos-mudos em consonância com as grandes narrativas de privações, faltas e incapacidades. Com um viés paternalista, muitas instituições (escolas, centros profissionalizantes, associações de apoio, clínicas, etc.) firmaram-se como centros de excelência para a reabilitação desse público “deficiente”.
Mas muitos surdos resistiam, clandestinos, aos imperativos oralistas, e faziam de suas mãos conversas em momentos privados, longe dos olhos e do policiamento ouvintista. Nas ruas, nos dormitórios das instituições – às escondidas –, em encontros com amigos, a comunicação manual sobrepunha-se aos esforços da fala, mantendo uma linha tênue de confronto contra as imposições que lhes eram ditadas. Não só a comunicação mudava de modalidade (de uma modalidade oral-aural/oral-auditiva para outra visual-espacial/viso-motora) na presença de outros interlocutores surdos, como muitas práticas simbólicas eram partilhadas nesses sítios em que se driblavam os ditames das imposições ouvintes. As formas de convivência, de associação, de resistência e de luta entre sujeitos surdos eram das mais diferentes, de acordo com os lugares em que se davam, mas mantinham-se (com menos ou mais resiliência) acesas.
Nos segredos dos gestos, nos encontros em associações, nas práticas desportivas, nos momentos privados em espaços escolares e em instituições “especiais”, nas lutas e nos movimentos sociais, as línguas de sinais mantinham-se vivas, assim como práticas culturais próprias perpetuavam-se entre gerações. Desse modo, as comunidades surdas se fortaleceram, pouco a pouco, (re)criando espaços próprios e comuns em que a diferença não subalternizava, permitindo articulações e promoções de lutas por direitos e reconhecimento.